segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Chuva


Chovia na janela. Chovia. Pingos finos, quase garoa, mas chovia. Depois de meses de poeira e calor, inverno fake, a chuva compassava música no quintal, aromatizava a casa de terra molhada. Ela chovia com a chuva, agasalhada, meias nos pés, café quente no início da noite, muita preguiça de tirar a roupa e deixar a água morna lavar o dia da pele. Ela chovia o seu falso inverno. Andava pela casa de meias, sem rumo certo, quarto, sala, cozinha, tentando lembrar de algo por fazer e sem vontade de fazer algo. Largar-se na frente da tv, talvez? Melhor ler um livro. Nem tv, nem livro, nem música – a chuva trilhassonorava a noite. A chuva que vinha das nuvens e a sua chuva interna, nebulosa, cumulus nimbus na alma. E ela abriu seu guarda-chuva cinza e agasalhou sua solidão.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Vestidas de Branco





Exposição de Nelson Leirner no Museu da Vale

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

grafitado a fogo




desenhos feitos com fogo pelo João Victor

terça-feira, 29 de julho de 2008

Pessoas, passado e futuro

Algumas pessoas a gente nunca mais viu. Passado. Mas, quando encontra um dia, é como se nunca tivessem se perdido da gente. O brilho no olhar é intenso, o abraço ainda é apertado e força do gostar é a mesma.
Algumas pessoas, porém, são mesmo passado. E a gente, quando as revê, é como se tivesse visto um estranho que não quer conhecer. Elas não fazem mais parte da vida da gente. Não sobrou nenhum lugarzinho esquecido no fundo do coração para acolhê-las novamente. A gente nem tem curiosidade sobre o destino delas: não quer saber quem são agora, o que fazem, se têm filhos ou se estão apaixonadas. A gente não quer conhecer de novo.
Esse sentimento (ou falta de) não tem nada a ver com ressentimentos ou mágoas. Tem a ver com a descoberta de que aquela pessoa, que em determinado momento foi tão importante e determinante, não é alguém com quem se queira compartilhar nada, muito menos o futuro, seja ele qual for. Reatar um laço perdido é propor algum tipo de aliança para o futuro. E tem gente que a gente não quer ter como parceiro para o futuro. A relação já deu o que tinha que dar e não é possível estabelecer outra.
Eu não sabia que tinha pessoas assim na minha vida. Descobri agora.

sábado, 28 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 18 de maio de 2008

Um roteiro


Meu amigo,
Você mandou me perguntar se o meu roteiro já está pronto. Está. Meu roteiro é só essa foto em anexo. Não estranhe a falta de texto e marcações de câmera. Explico: Essa foto foi feita num fim de tarde na praia e todo o filme vai ser construído em volta dela: 35mim, preto e branco. Uma foto capturada num fim de tarde solitária, de vento suave encrespando de leve o mar. Uma tarde em que, como o mar, eu me deixava varrer pelo vento suave.
Eu e minha câmera olhávamos em volta, atravessadas de vento e brisa marinha, vagueando na areia como guruçás noturnos. Na linha que divide o mar e o céu meus olhos viram a foto: um guarda-sol ligeiramente inclinado e, ao lado dele, de costas para mim, um homem jovem, alto, movimentando o corpo num ritmo lento de alongamento. Com a cumplicidade da câmara observei-o mais de perto, naquele fim de tarde suave e ventio. Ele se inclinou para a direita. Apertei o botão. A foto estava ali, latente, dentro da câmera.

(Ai, o corpo do rapaz na tarde solitária do Leblon...
Eu, voyeur, estudo
As coxas, os ombros,
Seus movimentos na lenta ginástica.
Ah, rapaz... que malícia a sua colocar
Seu corpo
Assim, contra o mar e o céu
Nessa tarde solitária
No Leblon.)

Esse é meu roteiro. Ele fala das delícias da solidão num fim de tarde marinha, da liberdade do olhar e do desejo do voyeur. Não somos todos nós, cinéfilos, uns solitários que prezamos a liberdade do olhar? Nós não nos escondemos no escuro de uma sala de projeção para observar outras vidas, mesmo que falsas? Não buscamos, com uma sede que nunca se aplaca, viver outras histórias que não a nossa? Como o personagem de A Rosa Púrpura do Cairo, estamos sempre lá, na sala escura, esperando, talvez, que o nosso personagem predileto saia da tela e nos transporte para uma outra vida, ou um outro filme.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Uns olhos


A cerveja gelada, o vento noroeste que arrepiava a pele, a cidade deserta: qual desses fatores me alterava assim os sentidos? Nem mesmo pensava sobre isso. Só sentia que alguma coisa estava aguçada. O gosto da cerveja amarga, o efeito do vento na epiderme, o sabor marinho da casquinha de siri, tudo estava potencializado, multiplicado por cem. Era como se de uma hora para outra as coisas todas ganhassem um sentido ainda não vivido. Como se eu visse tudo pela primeira vez. Um pouco mais de pimenta: queria desfrutar ao máximo daquele súbito super-poder que me chegou no início da noite. Ardor. Mais um gole de cerveja: amargo. E tinha uns olhos, que acompanhavam cada movimento meu, liam meus lábios, acompanhavam os volteios do vento em meus cabelos. Uns olhos... Qual a cor desses olhos? Pretos, ou castanho escuros? O mundo se resumia no travo amargo da cerveja, no ardor da pimenta e naqueles olhos que eu procurava desvendar. Castanhos, inequivocamente castanhos, com alguns matizes mais escuros e outros dourados. Os olhos me diziam alguma coisa, que eu respondia, aceitava, discordava. Um diálogo de olhos. Comecei a medir a distância entre eles, depois a proporção deles em relação ao nariz. Um nariz grande. Sempre gostei de grandes narizes: dá mais força ao rosto todo. E bocas grandes, cheia de dentes, com lábios carnudos. Essa era uma boca assim, e tinha certo jeito de escultura. Não uma escultura de mármore, perfeita, mas como talhada a canivete na madeira bruta. Não era uma boca perfeita, nem bem desenhada. Parecia até mesmo sobrar no rosto. O conjunto do rosto não era bonito. Pelo menos não era o que se convenciona chamar de beleza masculina, não possuía a harmonia e a simetria que o conceito de beleza exige. Mas me prendia o olhar, como se aqueles olhos me guiassem para aquele rosto imperfeito, forte e, por isso, belo. De que falávamos? Do tempo, de música, de projetos futuros, pequenas idéias em comum. Não importava o diálogo das vozes. O diálogo dos olhos era o mais intenso, o mais denso, mais prenhe de sentidos. O bar quase vazio, o vento frio, a rua deserta, tudo ganhava um novo sentido visto através desses olhos que me viam. Olhos que viraram mãos, em diálogo de afagos, que viraram bocas que se confundiam em líquidos e línguas, que viraram pele que subitamente se colam de desejo, se penetram, se fundem. Mas ai não havia mais o bar deserto, a rua molhada da chuva que passou. Havia pedras, mar batendo e uma traineira passando motor, motor, motor, na noite escura.




sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Via Láctea: delicadas emoções e nervos expostos





“Solidão é quando a gente não tem com quem falar que está sozinho” (fala do personagem Júlia)




A Via Láctea, de Lina Chamie, é um dos filmes mais intensos e perturbadores que vi ultimamente. (Pausa. Branco). Intenso e perturbador são palavras muito enfáticas e contundentes, que mais ou menos encerram a possibilidade de reflexão racional sobre o filme. Mas é uma reflexão racional o que quero fazer? O filme não me atingiu racionalmente. Ele me atingiu fisicamente: expôs meu oco, o buraco mal disfarçado da minha confusão emocional.

Vesti A Via Láctea por fora e por dentro e sai do cinema repleta das estrelas mortas que ainda teimam em brilhar nesse céu. Um céu que não começa nas nuvens, mas na epiderme da grama mais rasteira, na nossa epiderme exposta à poesia do caos humano, do caos urbano, do caos do amor, do caldo mal cozido de nossa dor de ser humano e amar e desamar, de pensar e se confundir, de lembrar e ser lembrado. E de esquecer. A Via Láctea poderia ser mais um história de amor e desencontro. Mas Lina Chamie optou pela via mais difícil e bela: a da poesia. E transformou seu filme numa obra de arte, no sentido mais amplo e contemporâneo do termo.

Para quem gosta de se ater ao fio da história, a de A Via Láctea é assim: Heitor, não por acaso um professor de literatura, e Júlia, duble de atriz e veterinária, se encontram e desencontram nos caminhos da grande cidade de São Paulo. Uma discussão violenta ao telefone faz com que Heitor saia de casa para ir ao encontro de Júlia. A história se resume na busca de Heitor por Júlia. E nessa busca ocorre também o encontro de Heitor com ele mesmo. São as lembranças de Heitor que nos contam sobre o casal e seu amor, tendo como pano de fundo e interlocutores a cidade e o trajeto entre o apartamento de Heitor e a casa de Júlia.

Mais que o cenário desse amor, a cidade de São Paulo é um personagem importante na construção do filme. São suas vias e seus remansos que determinam a interação entre os personagens. É a cidade que serve de fio condutor para essa história construída pelas lembranças e pela imaginação de Heitor. Uma história que pode mudar a qualquer hora, pois não há separação entre o que é a lembrança real, o sentimento ou a imaginação do apaixonado enciumado interpretado por um maravilhoso e maduro Marco Ricca (também produtor do filme).

A Júlia de Alice Braga (a Angélica de Cidade de Deus) a princípio parece não existir. Nós a vemos apenas com o olhar de Heitor, idealizada pelo amor de Heitor. Ela só aparece como Júlia no fim do filme. E ai percebemos a grandeza da atriz Alice Braga, que sutilmente construiu o personagem mítico que Heitor ama e o personagem real Júlia.

Toda a narrativa é construída com a matéria bruta da mente de Heitor e amalgamada com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Mário Chamie, entre outros. E também com a música de Gil, Satie e Mozart, misturadas à clássica abertura de desenho animado, o burburinho da cidade e a participação luxuosa e dionisíaca do Grupo Oficina. Tudo isso sobreposto às imagens poéticas da fotografia de Kátia Coelho e a primorosa direção de arte de Mara Abreu formam um palimpsesto de sentidos às vezes difícil de decifrar. Mas que toca na alma da gente com força. Um material delicado e denso que Lina Chamie e a equipe dominam com absoluta precisão e delicadeza. Um roteiro bem construído que a fotografia, o som, a direção e a atuação souberam interpretar com a maestria de quem trabalha com o coração desperto.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Fragmentos de um roteiro 2

Exterior, dia.
Sara chega ao prédio para começar a trabalhar, pega a chave com a faxineira e abre a porta. Acende as luzes da sala escura, tranca a porta por dentro e começa a olhar para tudo em volta. Vai até o consultório, uma sala ampla e clara. Abre as cortinas e janelas. Olha os livros enfileirados nas estantes com interesse e aprovação. Sobre a mesa, alguns objetos chamam atenção: uma pequena banda de Moebius em metal, uma escultura mínima de um cavalo correndo. Pega a escultura e examina com interesse: é perfeita, com detalhes realistas e movimento. Procura o nome do escultor na peça. Não acha. Coloca a peça no lugar e examina a agenda. Percorre com os dedos a data. Horários marcados das nove e meia da manhã até 10 da noite. Sorri.
Olha ainda alguns cartões postais sobre a mesa. Pega um com uma foto em p&B de Paris e lê: saudades... amor. C. Deixa o cartão no lugar rapidamente, como quem se arrepende da indiscrição.
Volta à sala de espera. Algumas flores murchas no vaso de cristal caro lhe chamam a atenção. Pega o vaso com cuidado e leva até a pia do banheiro. Tira as flores, despeja a água, coloca água nova e retira as flores já murchas, procurando dar ordem e harmonia ao novo arranjo. Examina com atenção e recoloca na sala de espera. Acerta algumas almofadas e vai pra mesa da secretária. A sua mesa, de agora em diante. Senta na cadeira macia de design moderno e examina as gavetas. Quase nada dentro delas. Uns papeis em branco, algumas anotações apressadas. Muitos clips coloridos, canetas de vários modelos. Um brinco sem par. Olha para computador à sua frente. Só então nota que tem um papel colado nele e tem alguma coisa escrita no papel. Lê:
Sara,
Bem vinda. Espero que a simpatia mútua do nosso primeiro encontro continue sempre. Acho que vou gostar de trabalhar com você. Se ainda não tomou café, tem cafeteira elétrica e pó no armário da cozinha. Tem algum dinheiro na caixinha de marfim na minha mesa. Por favor, compre alguns biscoitos casadinho na confeitaria em frente ao prédio e uvas na quitanda. Gosto de beliscar durante o dia. Veja o que você gosta de comer a compre também. Vai ser um dia duro. Chego às dez. O Jader espera. Até mais. M.
Sara lê o bilhete com o rosto contraído. Fica pensativa. Retira o papel do monitor, dobra com cuidado e coloca na última gaveta. Abre as portas do que ela acreditava ser um armário e vê uma pia, cafeteira, armário de parede com copos, xícaras e outros utensílios de cozinha. Faz o café e vai até o consultório pegar o dinheiro na caixinha de marfim. Abre a caixa e vê, com surpresa, um brinco igual ao que achou dentro da gaveta da secretária. Pega o brinco e examina com mais atenção do que examinou o outro. É um brinco simples de prata, mas com design sofisticado de joalheiro. Coloca de novo na caixa, pega o dinheiro e sai para a rua. Quando volta ao consultório encontra um rapaz um pouco mais novo que ela sentado no chão do corredor, em frente à porta do consultório. Roupas meio fora de moda, óculos de lentes grossas que o deixam mais velho, cabelos desleixados. Sara pede licença a ele pra abrir a porta, mas ele não sai. O rapaz diz a ela que não adianta entrar, que a porta está fechada. Não tem ninguém ai, diz. Ela mostra a chave com um sorriso. Ele se levanta, meio a contragosto e olha pra ela com curiosidade. Pergunta: Quem te deu a chave do consultório?
Sara: Dr. Marco. Sou a nova secretária dele.
Jader: você não parece secretária de psicanalista.
Sara: como é que deve parecer uma secretária de psicanalista?
Jader: sofisticada, linda e sensual.
Sara: muito obrigada. È uma maneira bem sutil de dizer que não sou nada disso.
Jader (desconcertado): Não, você é linda e sensual.
Sara (com cara séria e professoral): mas não sou sofisticada, né?
Jader (ainda mais desconcertado): não foi isso que quis dizer.
Ela sorri, abre a porta e convida o rapaz pra entrar com um gesto.
Ele se senta no canto do sofá grande, encolhido. Ela vai até a cozinha e retira o café da cafeteira, e coloca na garrafa. Desembrulha os biscoitos e os coloca num vidro grande. Lava as uvas e leva até a geladeira, dentro do consultório.
O rapaz continua na mesma posição, encolhido no sofá.
Ela olha pra ele como quem o nota pela primeira vez e pergunta se ele quer café.
Jader: Não. Quando tomo café fico muito nervoso. Eu já sou muito nervoso.
Sara: Se quiser alguma coisa é só falar, Jader.
Jader: Como é que você sabe meu nome? (assustado)
Sara (continuando seus afazeres): sou secretária do seu médico, esqueceu?
Jader (enfático): Ele não é médico, é psicanalista.
Sara: Qual é a diferença?
Jader: Como secretária dele você deveria saber.
Sara (divertida): Sou nova na profissão. Não sei. Me explica.
Jader (sério, levanta-se a segue pelo consultório): Médico pratica a medicina. O Marco é psicanalista, analisa as pessoas do ponto de vista da psique. O Interior da mente delas. Isso não tem nada a ver com a medicina.
Sara: Pensei que tivesse relação. Mas ele é médico.
Jader: É formado em medicina, mas aqui não é médico. Médico cuida do corpo. Ele cuida da mente.
Sara: Não é tudo uma coisa só?
Jader (assustado): De onde você tirou essa idéia? Claro que não. O corpo é o que sustêm a mente. A mente é totalmente independente do corpo.
Sara: Pois a minha não funciona quando sinto dor de dentes. Acho que você está falando de alma, não de mente.
Jader: Não acredito em alma.
Sara: Não falei de alma do outro mundo, Jader. Falei dessa instância etérea que é o nosso ser.
Jader: Você é algum tipo de mística, religiosa? Não pode trabalhar aqui não. Nós, que acreditamos na psicanálise, não somos místicos.
Sara: Jung acreditava na força do pensamento mítico.
Jader (nervoso): Jung era um charlatão! Marco não conversou com você antes de te contratar? Você não serve pra trabalhar aqui, não. Não pode ficar falando essas coisas pros pacientes dele.
Sara (cautelosa): Tem razão, Jader.
Jader: Tenho razão em que?
Sara: Em dizer que não posso ficar falando com os pacientes. Isso é serviço dele. Sente aí, pegue uma revista e espere ele chegar. Não falamos mais, tá bom?
Ele para, desconsertado. Volta para a poltrona cabisbaixo e senta no mesmo canto onde estava. Olha em volta e pega uma revista. Folheia sem interesse e larga no sofá. Levanta-se e vai até ela.
Jader: Não, prefiro conversar. Já li todas essas revistas daqui. Você tem que falar pro Marco comprar revistas novas.
Sara: Vou dar o recado.
Jader: Isso não é um recado. È sua função, como secretária, zelar pelo bem estar dos pacientes.
Sara: Não. Minha função é zelar pra que tudo ande bem. Quem tem que zelar pelo bem estar do paciente é o médico.
Jader: psicanalista!
Sara (já sem paciência): É, psicanalista.
Silêncio
Jader quebra o silêncio: Desculpa. Não converso muito com as pessoas. Não sei o tom que usar numa conversa. Fui grosseiro com você.
Sara (olhando nos olhos dele): Não se preocupe.
Jader: Você leu Jung?
Sara: E também um pouco de Freud.
Jader: Você é estudante de psicologia? Quer ser psicanalista?
Sara (sorrindo): Não. Trabalhei numa livraria.
Jader (decepcionado): Sei.
Sara: Você estuda?
Jader (entusiasmado): Entrei na faculdade aos 17 anos. Sou precoce (ri). Mas não terminei o curso. Fiquei doente.
Sara: Que pena. Doença grave?
Jader (rindo alto): O que você acha que estou fazendo aqui num consultório de psicanalista?
Sara: Você mesmo disse que ele não é médico. Não cuida de doentes.
Jader (surpreendido com a resposta): Tem razão. Mas existem doenças da mente também. Sou esquizofrênico.
Sara (olhando direto pra ele): Você tem visões, essas coisas?
Jader (subitamente triste): Ás vezes ouço coisas. Mas não sempre. Mas não se preocupe comigo. Nunca ataquei ninguém. Ri.
Sara (rindo): Não estou com medo de você não, Jader. Conheço muitos malucos na minha vida. Minha família é cheia deles.
Os dois riem, descontraídos.
Jader: Me dá aquele café?
Sara: Não. Você disse que fica nervoso. Tenho medo de maluco nervoso.
Jader (rindo): Você é legal. Não vou ficar nervoso, não. Pode me dar o café. Tem leite?
Sara: Tem leite em pó. Serve?
Jader: Gosto com bastante leite em pó, pra ficar aquela papinha de leite no fundo.
Sara: Eu também. Vou preparar pra nós dois.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Fragmentos de um roteiro

Interior. Luz fria de um corredor de prédio comercial.
Sara, uma jovem de 20 e poucos anos, está parada no corredor, em frente à uma porta, sozinha. Vacila um pouco e toca a campainha. A porta se abre e aparece um homem de cerca de 30 anos, muito bonito, alto, e sorridente. Close no rosto de Sara (espanto por ver um homem tão bonito).
Sara: Consultório do Dr. Marco?
O homem sorri e faz que sim com a cabeça.
Sara: Oi, Meu nome é Sara. Eu liguei hoje cedo, pelo anúncio. O Dr. Marco...?
Close no rosto dele: sorrindo, avalia com os olhos a mulher.
Marco: Oi, Eu sou o Marco. (Indica com a mão a poltrona e sentam-se um em frente ao outro) Você tem experiência em consultórios?
Sara (séria): Nenhuma, mas tenho experiência com pessoas. Já fui vendedora. Não deve ser muito diferente, acho.
Marco: É, tem razão, aqui também é um trabalho na área de vendas.
Sara (sorri e se descontrai, surpresa com a resposta): Você vende felicidade, não é?
Marco (sorri): Mais ou menos. Você vendia o que?
Sara (encolhe os ombros): Livros. Trabalhei numa livraria.
Marco (sério): Esse foi seu primeiro emprego?
Sara (séria): Não, antes disso trabalhei num jornal, na minha cidade. Fazia pesquisa para a redação.
Marco (sério): Que tipo de pesquisa?
Sara: (séria): Material para fomentar as matérias dos jornalistas: vida de personalidades e artistas, história de bairros, empresas e instituições, essas coisas.
Marco: (demonstrando interesse): Trabalho interessante. Deve ter te ajudado bastante quando você trabalhou na livraria.
Sara (sorrindo): É verdade: não li todos os livros que vendi, mas li tantas resenhas e sobre tantos autores que posso convencer qualquer um que o livro é ótimo.
Os dois riem, olhando-se fixamente. Ele demonstrando interesse, ela, um pouco tímida.
Marco: Você estuda?
Sara (séria subitamente): Não. Fazia Artes Plásticas, mas abandonei o curso. Vou fazer um novo vestibular.
Marco (demonstrando interesse): Por que parou?
Sara (encolhendo os ombros): Descobri que sou só uma apreciadora de arte, mas não tenho o menor talento. Vou tentar vestibular para Letras.
Marco (brincando): Só não vai descobrir que é só uma apreciadora de literatura, mas não tem o menor talento...
Os dois riem. Depois fica um silêncio meio constrangido.
Ele quebra o silêncio: Você pode começar amanhã de manhã? Começo a atender às 10h, então você tem que estar aqui às nove. A faxineira vai estar aqui. Ela trabalha no prédio. Vou avisá-la hoje que você começa a trabalhar amanhã às 9h. Minha agenda está dentro do consultório. O que você tem que fazer é olhar o que tenho na agenda, atender telefone e organizar as fichas dos pacientes. Nada de complicado. Mas tem outro trabalho que precisa ser feito: escrevo artigos e preciso que você digite esse material. Você é boa digitadora?
Sara: Sou razoável. Nunca contei quantas palavras faço por minuto. Digito meus próprios textos e algumas coisas de trabalho. Se você precisa de uma secretária muito experiente nisso, eu não sou indicada. Mas acho que a prática pode melhorar isso. Você não vai estar aqui amanhã quando eu chegar?
Marco: Não. Só chego às 10. É o horário do meu primeiro paciente. O nome dele é Jader. Ele geralmente chega cedo. (sorrindo): vai estranhar de não encontrar a porta fechada.
Sara: Seus pacientes tinham que esperar você no corredor do prédio?
Marco: Pois é. Ainda bem que eles são pacientes.
Ambos riem do chiste. Silenciam. Fica um silêncio meio constrangido no ar até que ela se levanta e pergunta: posso ver seu consultório? Nunca vi um divã de psicanalista ao vivo...
Ele ri: não tenho divã. Tenho uma poltrona confortável para os pacientes e outra pra mim.
Sara: ah! (decepcionada). Então tá tudo certo? Começo amanhã, ok? Como é o nome da faxineira?
Marco: faxineira?
Sara: sua faxineira, que trabalha no prédio. Ela está com a chave, né isso?
Marco: É. Keyla. O nome dela é Keyla. Pode pegar a chave com ela. Vou avisar hoje.
Sara: Então, tchau.
Marco: até amanhã.
Sara: Até.
Nenhum dos dois se move. Ficam olhando um para o outro por um longo tempo. Fade