quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Te Invito


Semana passada comecei a ver uma série na NetFlix chamada La Niña. Na verdade, é mais uma novela que uma série, inclusive pela linguagem novelesca tão característica da teledramaturgia latinoamericana. Me interessei pela série porque retrata a realidade, pouco conhecida dos brasileiros, das crianças envolvidas nos grupos de guerrilha e paramilitares da Colômbia. Pois então, da Colômbia, aqui do nosso lado, sabemos tão pouco! Ouvimos falar tanto das Farc's (e da atual negociação de paz entre as Farc's e o governo colombiano) e do cartel de Medelin, Pablo Escobar, etc, mas o que sabemos nós da realidade colombiana e do contexto do surgimento de toda essa guerra? Quase tanto quanto sabemos da realidade dos nossos vizinhos peruanos, venezuelanos, bolivianos ... quase nada, né mesmo? Nós, brasileiros, ignoramos solenemente uma América Latina da qual somos parte.

Voltando à série, ela conta a história real de Belky, ou da guerrilheira Sara, que viveu com a guerrilha desde os 8 anos de idade, quando foi sequestrada, até os 15, quando foi presa e reintegrada por meio de um programa de reintegração do governo para crianças e adolescentes vindos dos grupos de guerrilha ou de grupos paramilitares (aliás, o Brasil deveria investigar melhor como funciona esse programa e tentar aplicar algo parecido aqui, com nossos adolescentes cooptados pelo tráfico). Como ela, muitas crianças sairam de suas casas aos 8, 9, 10 anos de idade, sequestrados ou vendidos pelos próprios pais, para viverem nas selvas colombianas em grupos clandestinos, recebendo treinamento militar, sem escola, família ou qualquer estrutura de afeto. Reabilitar esses adolescentes é uma tarefa gigantesca que, imagino, nem sempre é bem sucedida. Belky é o exemplo de uma reabilitação possível e por isso, acho, sua história foi contada. A série tem boas reflexões sobre essa questão da reabilitação e, principalmente, sobre a importância da sociedade nessa reabilitação.

Como eu disse no início, não sei muito sobre a Colômbia, mas é um pouco Caribe, né? E, como tal, deve ser um país com forte presença negra. Pois a série tem apenas uma pessoa negra, uma médica e professora da faculdade de Belky, e essa mesmo, de negra só tem o tom de pele, pois tem traços finos e cabelos lisos. Também a presença indígena, tão forte na América Latina, é pouco notada. Apesar dos traços físicos do padrastro e de uma das irmãs de Belky serem claramente índígenas, a família toda é bem ariana. Toda a faculdade que ela frequenta, todos os seus amigos, seus companheiros de trabalho, seus professores, todos, são totalmente caucasianos. Onde está a presença latino americana na série? No antagonista: o coronel Barragán, o malvado coronel do exército que a estuprou e torturou. Ah, as sutilizas do racismo latino!... as teses de Lombroso fazem eco até hoje no imaginário dos escaladores de elenco das produções audiovisuais.

Esse racismo inconsciente que nos faz ver em um mestiço, um negro ou um índio como um bandido, um assassino ou um pária é o mesmo que proporciona cenas como as que vimos ontem em Brasília, principalmente na emblemática fotografia que mostra servidores públicos acastelados dentro do senado federal em um despreocupado coquetel, enquanto lá fora as bombas de gás lacrimogêneo e os cacetetes da polícia massacravam os manifestantes estudantes e representantes de movimentos sociais que protestavam contra a aprovação da PEC 55.

A abertura da série tem uma música linda que fui pesquisar e, para minha surpresa, o clipe oficial do grupo mostra exatamente o que a série esconde: uma Colômbia negra, uma comunidade quilombola muito parecida com as que vemos no Brasil. A música tem um verso assim:

“Te invito a vivir con migo las lunadas que realizan en mi pueblo
las noches de luna llena y los aguaceros cuando ya es invierno.
nuestras fiestas patronales a ver los arrullos en cada diciembre
y juntos en año nuevo tratar de cumplir los años que se tienen.
la experiencias de mis viejos y dolor de sus ancestros
los poderes de sus Dioses sus odios y sus anhelos”

Então, aproveitando o convite da música, convido a todos nós brasileiros e latino americanos a nos olharmos no espelho de nossa formação cultural latino americana indígena, negra, colonizadora e colonizada e realmente nos vermos como povo que tem os mesmos problemas estruturais de injustiça social, que sofre o mesmo massacre simbólico e literal. Só quando nos vermos como somos é que conseguiremos resolver nossos graves problemas sociais e estruturais.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Manacá



 
No cruzamento onde passo quase todos os dias na hora do almoço tem um pezinho de Manacá. Não o Manacá da Serra, que hoje a gente vê com frequência plantada nos jardins das cidades, mas o Manacá autêntico, com suas florzinhas de matizes diferentes entre o branco e o lilás e seu perfume forte. Quase todos os dias passo por ele quando vou e quando volto do almoço. E tenho tanta pena daquele pezinho de manacá perdido numa ilha entre asfaltos, à mercê da fumaça dos carros e do desprezo das gentes. Está lá há anos e não se desenvolve, apesar de estar sempre florido. Tenho vontade de parar e fazer um carinho nele e dizer que eu o vejo todos os dias no meu horário de almoço. Tenho vontade de levar ele de volta para o quintal da tia Lalá, lá em Caçaroca, onde ele podia usufruir da companhia da jaqueira e do cacaueiro, na beira do rio, esvoaçado de borboletas. Lá, sim, é o lugar dele. Foi lá que o beija-flor fez um ninho tão minúsculo, com ovinhos tão pequenos, que eu tive que colocar o dedo para sentir que era de verdade e então o Nélio me fez cuspir no ninho para tirar o meu cheiro dos ovinhos e não espantar a mãe beija-flor. E que cheiro bom ele exalava lá! De noite, então, dava até dor de cabeça ficar muito tempo perto dele, de tanto que perfumava.  Aqui ele não tem cheiro, não cresce, não acolhe beija-flores. Que pena que sinto dele!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cruzamento

Cruzo a cidade
em constante construção
(ela e eu).

Cruzo a cidade,
revirada
remodelada
(Atenção: homens trabalhando)

Cruzo a cidade presépio
A cidade túmulo
A cidade sirenes
A cidade jardins
A cidade encruzilhadas
De estranhos cidadãos
A cidade sol com o céu sempre azul.


Cruzo a cidade sem fôlego:
Preciso de ar
Preciso de afago
Preciso transformar esse minério que respiro
Em Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre Jogo de Cena

Um artigo meu sobre o documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, foi publicado na revista Diversos Afins.

O filme completo pode ser conferido aqui:

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014



Estou gestando palavras. Elas me abandonaram desde o dia 15 de novembro de 2010. Mas agora engravidei delas novamente. É uma gestação sem período determinado. Pode durar mais três anos ou apenas três dias. Às vezes acho que sinto as dores do parto, mas quando me preparo para ele vejo que foi alarme falso. Mas agora tenho certeza de que estou grávida de palavras. E uma boa ninhada delas pode vir por ai. Palavras filhas bastardas de mim que amamentarei com carinho.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Três carinhos

Tinha três lembranças da mãe. Três carinhos, como ele disse. Três pequenos frames da memória de ter uma mãe. No primeiro, a via descendo a ladeira da rua descalça onde moravam, de casaco azul. Via o azul da aba do casaco voando ao vento. No segundo, um pouco mais longo, eles enxotavam alegres uma andorinha que sobrevoava a nave da igreja que ela varria. No terceiro, ela subia num ônibus. E isso foi tudo o que ficou na sua pequena memória de criança quando a mãe morreu num acidente. O resto era memória dos outros: que ela levantou, deu o peito ao bebê que segurava, disse para sua irmã mais velha que estava bem e, logo depois, partiu para o infinito.

domingo, 5 de agosto de 2012

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rezo

para Adélia Prado

Que dor, que pétala, que flor!
(Salmodrummondiando)
Coloco a mão no peito
Bem onde dói e choro
Essa dor ressentida dos dias
O que doerá sempre e nunca brandamente
No balanço das horas findas
A minha dor
A minha pétala
A minha flor
Esse sopro no abismo
Que flutua dentro de mim
E rezo
Como se beijasse
A indelicadeza das horas.

(poema de Cida Almeida, do livro Flor da Pedra)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vá se Foucault!

"Existem momentos na vida onde a questão de saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir."
Michel Foucault

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Razão e fé

“A fé é a antítese da razão”.  Li essa frase e fiquei pensando sobre o seu significado e o que há por traz de uma afirmação tão peremptória. Por mais racional que eu seja não posso concordar com ela. Fé e razão não são antíteses, mas faces de uma mesma moeda. Acreditar na verdade dela é excluir da categoria de humanos racionais bilhões de pessoas que pautam sua vida pela fé, seja de que forma for que ela se manifeste. A frase é, portanto (ao menos do meu ponto de vista) profundamente preconceituosa.

A frase também é uma contradição, pois acreditar que a razão se contrapõe à fé é ter muita fé na verdade da razão. E a história tem nos mostrado que a razão não é exatamente uma manifestação da verdade, mas é puramente social e histórica.  Portanto, acreditar apenas na razão é ter uma fé vã, pois a razão pode assumir muitas faces dependendo do contexto social, histórico e cultural no qual estamos imersos.

A racionalidade fria que a razão impõe também se contrapõe ao meu conceito de humanidade, pois para atingirmos a racionalidade precisamos nos isolar do que temos de mais humano: o sentimento afetivo pelo outro, a compaixão e a afetividade. Tudo isso só pode ser explicado pela fé. A razão ainda não encontrou nada que possa explicar esse estranho laço que nós humanos temos com os outros humanos e que nos fazem sentir a dor do outro e colocar nossa vida à disposição daqueles que amamos.  Esses laços que nos constituem e nos tornam real.

A razão falha em muitas coisas. Talvez nunca consigamos encontrar a razão. A fé não busca a verdade das coisas. Não busca a razão de ser. Apenas é. E apenas ser talvez seja a única verdade alcançável. Nossa vã filosofia não dá conta da imensidão que não podemos apreender. A fé dá.  A fé ampara, acalenta, consola, une e não falha. A razão desespera e isola.

Quando falo de fé não refiro a religiões. Essas, em sua maioria, são formas diferentes de explicar o ser racionalmente. E, como tal, trazem consigo os mesmos dogmas que a razão contém. Enquanto a racionalidade cria o dogma da ciência e do conhecimento, a religião cria os dogmas do poder divino. Ambos paralisam e fazem com que nos sintamos impotentes diante de um poder maior que não podemos modificar ou interferir.

Eu, por mim, tenho buscado a fé. Encontrá-la é uma tarefa difícil nos dias em que vivemos. Não sei se serei capaz de chegar a ela. A vida tem me posto à prova todos os dias. Procuro me fortalecer na fé. Procuro me apegar à fé em que posso interferir, posso contribuir para que as pessoas, ao menos as próximas a mim, vivam melhor. Vou lavar minhas louças e cuidar do meu quintal. Vou me preparar para cuidar da minha rua, do meu bairro, da minha cidade. Buscar que o melhor de mim seja meu legado para a humanidade, mesmo que o melhor em mim seja muito pouco.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sempre comigo




10 Agradando a Deus, o justo é amado por ele; vivendo entre pecadores, Deus o transferiu para outro lugar.
11 Foi arrebatado para que a malícia não lhe pervertesse a inteligência, nem o engano seduzisse sua alma.
12 Pois o fascínio da frivolidade obscurece os valores verdadeiros, e a inconstância das paixões transtorna a mente sem malícia.
13 Tendo alcançado em pouco tempo a perfeição, completou uma longa carreira:
14 sua alma era agradável ao Senhor, que por isso apressou-se em tirá-lo do meio da maldade. As pessoas vêem isso e não compreendem, e não refletem, em seu coração,
15 que a graça e a misericórdia são para os eleitos do Senhor, e que ele intervém em favor dos seus santos.
16 Mas o justo, morto, condena os ímpios vivos; e a juventude, cedo terminada, a prolongada velhice do injusto.
(Livro da Sabedoria - Cap. 4)

sábado, 26 de junho de 2010

Receita do Itamar

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto,
invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.*

*Itamar Assumpção

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara"


Morreu hoje José Saramago. Ateu, na foto de Sebastião Salgado ele parece caminhar para a eternidade...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Radicalismo


Aviso em casa abandonada em Goiabeiras. às vezes é preciso ser radical!