quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cruzamento

Cruzo a cidade
em constante construção
(ela e eu).

Cruzo a cidade,
revirada
remodelada
(Atenção: homens trabalhando)

Cruzo a cidade presépio
A cidade túmulo
A cidade sirenes
A cidade jardins
A cidade encruzilhadas
De estranhos cidadãos
A cidade sol com o céu sempre azul.


Cruzo a cidade sem fôlego:
Preciso de ar
Preciso de afago
Preciso transformar esse minério que respiro
Em Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre Jogo de Cena

Um artigo meu sobre o documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, foi publicado na revista Diversos Afins.

O filme completo pode ser conferido aqui:

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014



Estou gestando palavras. Elas me abandonaram desde o dia 15 de novembro de 2010. Mas agora engravidei delas novamente. É uma gestação sem período determinado. Pode durar mais três anos ou apenas três dias. Às vezes acho que sinto as dores do parto, mas quando me preparo para ele vejo que foi alarme falso. Mas agora tenho certeza de que estou grávida de palavras. E uma boa ninhada delas pode vir por ai. Palavras filhas bastardas de mim que amamentarei com carinho.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Três carinhos

Tinha três lembranças da mãe. Três carinhos, como ele disse. Três pequenos frames da memória de ter uma mãe. No primeiro, a via descendo a ladeira da rua descalça onde moravam, de casaco azul. Via o azul da aba do casaco voando ao vento. No segundo, um pouco mais longo, eles enxotavam alegres uma andorinha que sobrevoava a nave da igreja que ela varria. No terceiro, ela subia num ônibus. E isso foi tudo o que ficou na sua pequena memória de criança quando a mãe morreu num acidente. O resto era memória dos outros: que ela levantou, deu o peito ao bebê que segurava, disse para sua irmã mais velha que estava bem e, logo depois, partiu para o infinito.

domingo, 5 de agosto de 2012

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rezo

para Adélia Prado

Que dor, que pétala, que flor!
(Salmodrummondiando)
Coloco a mão no peito
Bem onde dói e choro
Essa dor ressentida dos dias
O que doerá sempre e nunca brandamente
No balanço das horas findas
A minha dor
A minha pétala
A minha flor
Esse sopro no abismo
Que flutua dentro de mim
E rezo
Como se beijasse
A indelicadeza das horas.

(poema de Cida Almeida, do livro Flor da Pedra)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vá se Foucault!

"Existem momentos na vida onde a questão de saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir."
Michel Foucault

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Razão e fé

“A fé é a antítese da razão”.  Li essa frase e fiquei pensando sobre o seu significado e o que há por traz de uma afirmação tão peremptória. Por mais racional que eu seja não posso concordar com ela. Fé e razão não são antíteses, mas faces de uma mesma moeda. Acreditar na verdade dela é excluir da categoria de humanos racionais bilhões de pessoas que pautam sua vida pela fé, seja de que forma for que ela se manifeste. A frase é, portanto (ao menos do meu ponto de vista) profundamente preconceituosa.

A frase também é uma contradição, pois acreditar que a razão se contrapõe à fé é ter muita fé na verdade da razão. E a história tem nos mostrado que a razão não é exatamente uma manifestação da verdade, mas é puramente social e histórica.  Portanto, acreditar apenas na razão é ter uma fé vã, pois a razão pode assumir muitas faces dependendo do contexto social, histórico e cultural no qual estamos imersos.

A racionalidade fria que a razão impõe também se contrapõe ao meu conceito de humanidade, pois para atingirmos a racionalidade precisamos nos isolar do que temos de mais humano: o sentimento afetivo pelo outro, a compaixão e a afetividade. Tudo isso só pode ser explicado pela fé. A razão ainda não encontrou nada que possa explicar esse estranho laço que nós humanos temos com os outros humanos e que nos fazem sentir a dor do outro e colocar nossa vida à disposição daqueles que amamos.  Esses laços que nos constituem e nos tornam real.

A razão falha em muitas coisas. Talvez nunca consigamos encontrar a razão. A fé não busca a verdade das coisas. Não busca a razão de ser. Apenas é. E apenas ser talvez seja a única verdade alcançável. Nossa vã filosofia não dá conta da imensidão que não podemos apreender. A fé dá.  A fé ampara, acalenta, consola, une e não falha. A razão desespera e isola.

Quando falo de fé não refiro a religiões. Essas, em sua maioria, são formas diferentes de explicar o ser racionalmente. E, como tal, trazem consigo os mesmos dogmas que a razão contém. Enquanto a racionalidade cria o dogma da ciência e do conhecimento, a religião cria os dogmas do poder divino. Ambos paralisam e fazem com que nos sintamos impotentes diante de um poder maior que não podemos modificar ou interferir.

Eu, por mim, tenho buscado a fé. Encontrá-la é uma tarefa difícil nos dias em que vivemos. Não sei se serei capaz de chegar a ela. A vida tem me posto à prova todos os dias. Procuro me fortalecer na fé. Procuro me apegar à fé em que posso interferir, posso contribuir para que as pessoas, ao menos as próximas a mim, vivam melhor. Vou lavar minhas louças e cuidar do meu quintal. Vou me preparar para cuidar da minha rua, do meu bairro, da minha cidade. Buscar que o melhor de mim seja meu legado para a humanidade, mesmo que o melhor em mim seja muito pouco.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sempre comigo




10 Agradando a Deus, o justo é amado por ele; vivendo entre pecadores, Deus o transferiu para outro lugar.
11 Foi arrebatado para que a malícia não lhe pervertesse a inteligência, nem o engano seduzisse sua alma.
12 Pois o fascínio da frivolidade obscurece os valores verdadeiros, e a inconstância das paixões transtorna a mente sem malícia.
13 Tendo alcançado em pouco tempo a perfeição, completou uma longa carreira:
14 sua alma era agradável ao Senhor, que por isso apressou-se em tirá-lo do meio da maldade. As pessoas vêem isso e não compreendem, e não refletem, em seu coração,
15 que a graça e a misericórdia são para os eleitos do Senhor, e que ele intervém em favor dos seus santos.
16 Mas o justo, morto, condena os ímpios vivos; e a juventude, cedo terminada, a prolongada velhice do injusto.
(Livro da Sabedoria - Cap. 4)

sábado, 26 de junho de 2010

Receita do Itamar

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto,
invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.*

*Itamar Assumpção

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara"


Morreu hoje José Saramago. Ateu, na foto de Sebastião Salgado ele parece caminhar para a eternidade...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Radicalismo


Aviso em casa abandonada em Goiabeiras. às vezes é preciso ser radical!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

por todos os corpos do seu corpo

Comece deixando de lado tudo aquilo que não é para o corpo. Ele apodrece devagar e o tempo demora. Mesmo que o seu já esteja podre, concentre-se nele. Mesmo quando estiver entre o corpo de alguém, concentre-se no seu. De que outra forma poderia estar alguém em tudo se não assim, extremamente atento ao próprio corpo e seus incontáveis outros corpos? Deixe de lado essas coisas de espírito, que o único espírito que o corpo sabe é a vontade. E essa é sempre urgente. E fica ululando dentro do corpo até que este cometa o excesso. Só no excesso o corpo se farta. No outro dia se arrepende, dói, faz promessas, mas depois volta a procurar alguma coisa que ele não sabe o que é... E não há nada para ser encontrado. Nada que naturalmente já não nos encontre e nos atinja todos os dias. Se não fosse o falecimento lento da memória, nem riríamos mais destes mesmos fatos. Ainda assim alguma coisa no corpo quer uma coisa que não sabe o que é. Será morrer? Deixe de lado, também, essas coisas de morrer. Não fazem bem para o corpo. Observe que seu corpo está em pé numa esfera torta girando como uma louca perto de uma outra esfera de fogo muito maior que ela; isso não vai acabar bem. Mas seu corpo pode gozar muito ainda. Gozos diversos. Por todos os corpos do seu corpo. Até os imaginários. Pode fingir que goza e gozar com isso. Ou com tapas ou enfeites ou remédios ou canivetes ou rapés ou mesmo sexo.

(De Juliano Gauche, poeta, letrista e vocalista da banda Solana, que amadurece a cada letra) 

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

domingo, 22 de novembro de 2009

Horário de verão

Durmo tarde, acordo cedo, penso: é domingo! e viro pro outro lado, cubro os ombros e durmo mais. Acordo novamente, xixi, água e me jogo de novo na cama feliz, abrançando o travesseiro. Durmo mais. Durmo mais? O telefone grita do outro lado do meu sono. Atendo com um oi, advinhando quem está do outro lado da linha. Só mesmo minha mãe para ligar domingo de manhã. Oi, mãe... a voz dela saltita no telefone: dormindo até essa hora?? sim, mãe, domingo, nove e meia da manhã de domingo. eu posso dormir até meio dia, mãe, é domingo. que nove e meia! dez e meia, já. horário de verão, esqueceu? é, esqueci mãe. não ajustei meus relógios (nunca ajusto meus relógios, mãe, o tempo é uma convenção).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

hotel California


Ainda que a dor me esmague a vontade
Ainda que os cheiros não me afetem o olfato
E as cores não façam dançar meus olhos
Ainda que o calor morno do sol da tarde não me energize
Ou que o vento não revolva meus cabelos
Ainda assim, ouvir uma velha canção dos Eagles
Pode me fazer sorrir.

domingo, 4 de outubro de 2009

Las simples cosas



Mercedes morreu hoje. Sua voz marcou minha adolescência com duas canções: Gracias a la vida e Volver a los 17. Na primeira, um celebração da vida, na segunda, uma afirmação da possibilidade do amor. Na canção que ela canta nesse vídeo, Mercedes se despede das coisas simples que mais nos marcam. A canção é de Armando Tejada Gómez e César Isella - Canción de las simples cosas:
Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas, lo mismo que un árbol que en tiempo de otoño se queda sin hojas. Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas, esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón. Uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amó la vida, y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas. Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso, que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo. Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía, donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.

sábado, 3 de outubro de 2009

um segundo

num tão intenso azul
e todas as suas cores

numa beira de maré
vazante e outonal

um peixe prateia o ar
por um segundo.

círculos concêntricos
se quebram nas margens.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

manhã

Na morna manhã azul o manjericão espraia seus verdes sobre o limite azulejado do canteiro. Respiro verdes e azuis: vivo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Bem no fundo



No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

(de Paulo Leminski, um cachorro louco)

domingo, 27 de setembro de 2009

Contradição




Era tão só que transcendia a sua própria imanência.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Perfeitamente infeliz



"O homem perfeitamente infeliz tem saúde de ferro; check-up e estação de águas todos os anos; seus males físicos são apenas dois: dor de cabeça (não toma comprimido porque ataca o coração) e azia (não toma bicabornato porque vicia o organismo). O pai e o avô do homem infeliz morreram quase aos 90 anos _e ele o diz frequentemente. Banho frio por princípio, mesmo no inverno, e meia hora de ginástica diária. O homem perfeitamente infeliz (...) não deve nada a ninguém; toma notas minuciosas de todas as suas despesas; nunca pagou nada para os outros; não avaliza nota promissória nem para o próprio filho; tem manifesto orgulho disso tudo.(...)

A força de vontade do homem perfeitamente infeliz é tremenda: deixou de fumar há 11 anos, três meses, cinco dias. Se não deixou, poderá deixar a qualquer momento. (...) em família, porta-se com severidade, falta de graça e convencionalismo; cita provérbios edificantes e ditos históricos; sua glória é poder afirmar, diante de alguém em desgraça: 'Bem que eu te avisei!'."


De "A arte de ser infeliz", crônica de Paulo Mendes Campos

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tom Zé e o funk carioca

Ouvindo Tom Zé explicar o funk carioca, até dá vontade de tentar gostar do lance... Na verdade, meu grande problema com o funk (além das letras abomináveis) é o timbre de voz dos Funkeiros. Tenho o mesmo problema com os breganejos: aquela coisa que eles fazem com a garganta ao cantar toca alguma coisa em mim que me faz odiar esse tipo de música. Com o funk é o tom taquara rachada que me espanta. Se o funk fosse só o tamborzão, eu adoraria.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

América desnaturada


América do Sul
América do Sol
América do Sal
(início do poema Hip, hip, hoover!, de Oswald de Andrade)
Ó América que estás ao sul
Banhada pelo calor do sol,
América do pré-sal,
Da pré-história colonial,
Abismal e animal...
Ó América das negociatas escusas,
Dos políticos rastaqüeras,
América mãe desnaturada
Cujos filhos morrem à míngua
De fome, de ignorância, de solidão
Nas fétidas prisões dos teus porões.
Ó América minha terra ao sul
De onde não arredo meus pés cansados.
América que avisto tão linda
No Google Earth:
Montanhosa, verde e poderosa.
Vista assim de longe
Na tela do computador
Tu és a mais linda terra que há
Vista aqui de perto,
Na tela da Tv,
Tu não me mereces, América!

vai dar merda....!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Chove Chuva

Eu adoro o Jorge Ben Jor cantando Chove Chuva!  A Miriam Makeba também não fez feio na sua versão: voz e performance deliciosas. Mas, quem arrasou mesmo cantando Chove Chuva foi o Topo Gigio:

sábado, 5 de setembro de 2009

Programação ruim?

Notícia no blog do Gabeira. Solidão é isso!

Um austríaco de Salzburgo, que provavelmente morreu há seis meses, foi achado nesta sexta-feira, 4, no sofá de sua casa, diante de um televisor ligado. Segundo a agência de notícias APA, nesse período, nenhum vizinho sentiu a falta do homem, apesar da imensa pilha de correspondência que se acumulava em frente à porta do apartamento dele.
O corpo do austríaco só foi descoberto porque a administração do condomínio ligou para a polícia após estranhar o longo sumiço do morador. "Abrimos a porta do apartamento e encontramos o cadáver no sofá da sala, com a TV ainda funcionando. Parece que o homem morreu em março", disse Rudolf Feichtiger, da Polícia local. Junto ao sofá, foi achada a programação da TV para o dia 12 de março, o que levou as autoridades a deduzirem que o homem, já aposentado, morreu nesse dia.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Passeando na Rota do Lagarto

video
A Rota do Lagarto é um caminho que segue às margens da Pedra Azul, em Domingos Martins. A gravação foi feita em 29 de agosto de 2009, quando voltei de Alegre via estrada de Vargem Alta na companhia luxuosa de Marlene, Clair e Sidney. Editei o vídeo agora, ao encontrar essa música de Téo e Estrela Ruiz que é a cara do nosso passeio.

domingo, 23 de agosto de 2009

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

twittersofias




O bloquinho aéreo e a cabeça de vento!

Depois de muitos anos, voltei a escrever cartas. Digo, cartas: aquilo que a gente escreve à mão, num papel fino, coloca no envelope, sela e posta no correio. Desacostumada que estou de escrever à mão, descobri que minha letra está cada vez pior. E, também, que não fabricam mais o bloco Aéreo. Acho que só quem é da minha geração sabe o que é o bloco aéreo. A moça da papelaria me olhou com uma cara estranha quando perguntei se ela tinha um. Lembro de um que tinha uma águia na capa (ou condor, ou qualquer outra ave de rapina). Nunca entendi porque não colocaram um pombo correio como símbolo de um bloco de papel próprio para cartas. O fato é que a moça não sabia o que era. Tive que explicar várias vezes. Ela perguntou espantada: bloco para escrever cartas??? Pensei que tivesse que explicar também o que eram cartas. Mas não precisou. Isso ela sabia (embora, desconfio, nunca tenha escrito uma na vida). Já ia embora, desesperançada de encontrar o querido bloquinho, quando resolvi voltar, pedi para entrar no balcão e procurar eu mesmo o tal bloco. E não é que encontrei um (um único), já meio encardido, no meio dos envelopes? Mostrei a ela, triunfante, o bloquinho de folhas finas de seda e expliquei porque eles eram ideais para cartas. Ela não pareceu muito entusiasmada com a descoberta. Colocou o bloco na sacola e me disse quanto era (desconfio que inventou o preço, já que não havia nenhum no bloco).
Além das cartas, que voltei a escrever com freqüência, também estou escrevendo mais à mão. Minha agenda, na qual eu raramente anotava meus compromissos, virou minha memória de papel. Anoto tudo que tenho que fazer para não esquecer. Minha memória está cada dia pior. Tenho falhas de memória imperdoáveis. Para não perder totalmente a credibilidade, estou tomando o cuidado de anotar tudo. Também comprei um caderninho de anotações para as idéias dispersas, as sensações difusas e os lampejos de genialidade que se vão rapidamente. Mas isso ai acaba indo parar na agenda, pois a minha memória ainda não registrou a presença do tal caderninho em minha bolsa. É estranho não se lembrar das coisas. Às vezes, nem das pessoas. Já paguei alguns micos por isso. Eu, que sempre tive boa memória, principalmente visual, fico na maior saia justa quando alguém vem falar comigo na maior intimidade e eu não faço idéia de quem seja. Uma amiga me aconselhou a comer mais feijão, outra acha que tenho que tomar algum remédio. Fico pensando se existe mesmo uma pílula mágica que ative a memória e nos torne mais inteligentes e mais felizes. O cara que inventar isso vai ficar milionário!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

try to solve your puzzle

Uma frase solta na camiseta da moça na porta do ônibus hoje de manhã. Camiseta branca, frase rosa. Try to solve your puzzle. Será isso possível? A possibilidade contida na frase é real? Ao fim das contas, será a vida um jogo de montar e viver será aprender a juntar as peças espalhadas de forma correta até chegar ao que somos?

Essa frase me remete à idéia de destino, de "escrito nas estrelas". Acho que já acreditei nisso. E ainda acredito, vez em quando. Mas, cá pra nós, acho que o acaso é o grande destino de todos nós - a teoria do caos de cada um, no caos de cada dia. No grande puzzle da vida nossas peças estão e são embaralhadas com tantas outras, confundindo-se, formando figuras que logo se desfazem para se transformar em outra, e outra, e outra, infinitamente.

Como resolver nosso quebra-cabeças particular? Try, diz a frase. Ok, I try! A grande questão é o que formar com as peças desse jogo sem manual de instruções que é a vida. Nossa! Isso é tão Paulo Coelho!!!

terça-feira, 7 de julho de 2009

politicamente correto


Bonito e simpático grafite na parede do Centro de Referência da Pessoa com Deficiência, em Goiabeiras.

sábado, 27 de junho de 2009

você sempre esteve lá



Nos jornais de hoje (capas do dia 26), vários depoimentos dizendo o que senti desde quando soube da notícia da morte de Michael Jackson: ele era como um membro da família. E era mesmo. Um ídolo pop da minha geração, acompanhei o crescimento dele enquanto eu também crescia. Todas as suas estranhas transformações, seus escândalos ridículos de astro pop, seu embranquecimento inexplicável não o tornaram um estranho. Acima de tudo isso tem Billy Jean, e uma enorme vontade de caminhar na lua como ele fazia.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

For all - David Byrne interpreta Asa Branca

O clip é lindinho. Todos os elementos da cultura nordestina estão ali - o cangaço, a seca as xilogravuras do cordel, os instrumentos etc - e, no entanto, não tem nada do nosso nordeste. Um clip interessante para a gente pensar sobre a visão estrangeira sobre a nossa cultura. video

segunda-feira, 15 de junho de 2009

dezenove

hoje era pra gente ser feliz
hoje era pra gente rir junto,
fazer votos para o futuro.
hoje era pra eu te abençoar,
dar um beijo na sua testa
e te olhar com orgulho.
hoje era pra eu dizer: juízo!
e era pra você sorrir, me abraçar,
e responder: tenho de sobra!
hoje não era pra gente ser triste.
hoje era pra gente estar juntos.
hoje era pra ter um amanhã.
quando virá o futuro?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Queimem os livros!

Excelente crítica/manifesto de Claudio Brites sobre o ensino e a literatura, detonado a partir do episódio dos livros didáticos equivocados distribuídos nas escolas públicas de Sampa:

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Depois do que aconteceu com as Hqs e com o poema do Joca Terron eu pensei e considero que a literatura, concordo, deveria ser proibida, assim como a maconha.
teríamos, então literatura sendo traficada nos becos, que, convenhamos, é o lugar dela.
as pessoas se cutucariam quando vissem um roda de leitores na praça.
atravessariam a rua e abaixariam a cabeça.
escritores no bar seria motivo de blitz de charutos e ternos risca de giz.
concordo que a literatura deveria ser expurgada de todas as escolas.
onde é dissecada e emburrecida. perdida.
ignorada.
então os moleques cabulariam para ler.
cheirar as páginas, cheiro de livro.
para gozar no Cortiço e seus beijos suados.
xingar capitu de putinha dissimulada.
afinal o sexo no livro é muito mais sexo do que na novela.
no livro você volta e volta e re-lê e lê de novo.
vetem. proibam.
não foi assim que os quadrinhos ganharam força?
quando declarados proibidos e marginais?
vetem a literatura e quem sabe transtornamos tordorov e ela saia do perigo eminente de desaparecer.
Postado por Claudio Brites às 16:34


sexta-feira, 22 de maio de 2009

Carta para Fernando



Vitória, 21 de setembro de 2008

Fernando,

Escrevo deitada em minha cama, sob o cobertor quente. A luz do abajur projeta uma sombra longa sobre o caderno e não enxergo muito bem o que escrevo. Eu poderia ir para o computador digitar essa carta, que você provavelmente nunca vai ler. Mas não faço isso: o aconchego da minha cama, do cobertor quente e da luz amarelada do abajur me alivia da dor que sinto desde que sai do cinema. Não falo de uma dor difusa na alma, mas de uma dor física objetiva, cabeça, tronco e membros, que a tensão provocada pelo seu filme me causou. O fato é que sai do cinema com uma dor na nuca que ainda persiste e incomoda. A dor causada pelo estado de constante tensão que o seu filme provocou em mim. Não aquela tensão do suspense, nem a da torcida pelo final feliz. É uma bem mais profunda, que se reflete fisicamente nos músculos e no estômago. É uma dor causada pelo desconforto, ou melhor, pelo desespero de ser humano e se reconhecer no espelho cristalino que você nos mostra no seu maravilhoso filme Ensaio sobre a Cegueira.

Antes de me refugiar aqui nessa cama quente vaguei várias vezes pela casa. Abri e fechei a geladeira e o armário da cozinha, não sei se procurando por algo que não estava lá ou se me certificando de que aqueles lugares ainda continham o meu alimento: um pedaço de queijo branco, uns filés de frango, cenouras, leite e pão.

Não li o livro do Saramago. Mas o pouco que já li dele foi o suficiente para reconhecer no seu filme o toque da mão do autor e os alicerces de sua construção literária. Suponho que a cidade despersonalizada, as pessoas sem passado e sem nomes e o conflito secular entre o bem e o mal são elementos do livro, criados pelo Saramago. Que bela dupla vocês me saíram! Quem somos nós nas situações limites que não apenas humanos? Não somos pátria, nem família, nem mesmo cidadãos. Somos apenas humanos. E nessa humanidade nos revelamos, para o bem ou para o mal.

E isso me espanta: como é que você consegue capturar assim a alma do escritor e a traduzir em uma escrita diversa, feita de luz, cor, cenários e rostos? E, mais intrigante ainda, como é que você consegue usar elementos tão simples, óbvios até, para compor uma escrita cinematográfica tão densa e precisa? Todas as suas escolhas no filme são basicamente óbvias: a luz branca e difusa, o esmaecimento das cores, a montagem linear, a cenografia do caos, o filme centrado na atuação dos seus atores. Tudo muito básico, quase primário em termo de linguagem. E, no entanto, você consegue juntar todos esses elementos de um jeito tão sensível, tão magistral, e fazer com eles uma obra prima, como um bom pintor misturando as cores na paleta e tirando delas, em pinceladas, um quadro único.

Agradeço a você e Saramago pelo Ensaio sobre a cegueira.

Com admiração,

Claudia

domingo, 17 de maio de 2009

uma saudade

Tenho saudades dessa mulher. Revendo a força da interpretação dela em "atrás da porta" fico pensando que Elis foi a maior cantora que o Brasil já teve. Poucos cantores conseguem nos emocionar tanto. Dizem que nessa apresentação, num especial para a TV, ela tinha acabado de se separar e a emoção foi totalmente real. Mas, acho que ela era totalmente verdadeira em todas as canções - ela sentia cada palavra das letras que cantava e isso penetrava na gente através da sua voz. Quais seriam seus compositores favoritos hoje se ainda fosse viva?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Oroborus


alimentar-se de si
comer o próprio rabo
renascer das próprias entranhas
foder-se incessantemente
e gestar a própria vida
no útero de si.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

projéteis

video
Tv de Bolso na abertura da exposição Projéteis, de Marcelo Gandini, na Galeria Homero Massena.

A música do vídeo é emoções à vista, texto e locução de Eduardo Ferreira e trilha original de Capileh Charbel. Música nos créditos finais: Chaiyya Chaiyya, Dil Se e Sukhwinder Singh.