sábado, 25 de abril de 2009

pinhole day


Amanhã é o dia mundial da fotografia pinhole. Essa foto ai fiz hoje, pegando carona na latinha do professor Jo Name, no Centro de Artes, durante a oficina oferecida por ele e pelo professor Fábio Goveia, em homenagem à data. No primeiro plano, minha Caloi Terra e ao fundo o pezinho de cacau do Cemuni IV.

escolhas possíveis

(foto: Felipe Obrer)

um cão na noite
uma noite de cão

quinta-feira, 23 de abril de 2009

dos subterrâneos do sentir ao céu de cinzas pares

(chuva chegando em Guarapari)

É de gotas minúsculas de chuva que se faz o Oceano.
O sal, bem sei, vem das lágrimas dos rios e mares internos.

De palavra em palavra
vou tecendo meu oceano,
vou cantando meu sal
e renascendo das minhas cinzas.

(Poema de André Teixeira)

Projéteis


Quero conferir a exposição do Marcelo Gandini na Homero Massena. Gandini tem um trabalho muito consistente e essa nova exposição promete. Parece que ele está unindo suas duas faces numa só. A abertura será dia 28, às 20h. Dia 13 de maio, às 18h Gandini estará na galeria para um bate-papo com quem aparecer. A exposição pode ser vista das 10h às 18h, na galeria Homero Massena, Cidade Alta.

Na exposição Projéteis, Gandini reflete e pretende nos fazer refletir sobre a banalização da violência na sociedade. 12 alvos de treinamento de tiro perfurados por disparos de arma de fogo, pequenas caixas de acrílico com projéteis deformados utilizados nos disparos e os nomes das vítimas fatais atingidas por eles são os convites para o espectador refletir sobre a violência.

O artista plástico Marcelo Gandini também é o sargento Gandini, da Polícia Militar. A violência é matéria prima do seu trabalho na polícia. Longe de se acomodar numa vida de sargento, Gandini mostra sua inquietação utilizando os mais variados e inusitados meios. Restos de papel fotográfico dispensados pelos laboratórios de revelação viram expressão pura nas mãos do cara. Um pequeno barco, a Grandepequenacatraia, na baia de Vitória recebe uma busina de navio, na Bienal do Mar. E agora, unindo seus dois trabalhos, os projéteis utilizados para tirar vidas nos levam a pensar sobre a preciosidade que é viver. Viver em paz, sem sermos alvos fáceis de loucas balas perdidas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Arte para o dia a dia

(Leo fotografando a mãe diante da Cow Wallpaper)

Hoje fui ver a exposição do Andy Warhol, no Maes. Se considerarmos o universo da produção do cara, a exposição tem poucas obras. Mas, é o suficiente para mostrar a diversidade das atividades do inquieto artista. Papa da Pop Art, Warhol queria mesmo era ficar rico com sua arte. Inventou, para isso, um jeito de reproduzir com menor esforço suas criações e vende-las para quem se dispusesse a pagar o melhor preço. Ser um mercenário da arte (coisa que ele próprio admitia), não o torna menos artista. Suas criações são pesquisas profundas sobre a visualidade, a impermanência da arte e o simulacro da obra. Além disso, Warhol deu novo significado ao cotidiano.
(Screen test, com Nuvens de Prata)

A Exposição do Maes - "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" - deixa bem claro a diversidade dessas pesquisas de Andy Warhol: além das serigrafias já conhecidas de todos (e reproduzidas ad infinitum em todos os suportes possíveis), a exposição traz para Vitória trabalhos poucos conhecidos e difíceis de encontrar, tais como os filmes em 16mm e os retratos e auto retratos em polaroides (obras lindas). Num dos filmes, Empire State, ele gravou por 8 horas seguidas, registrando as nuances das mudanças da luz do dia até a noite, num trabalho que lembra o impressionista Monet e as suas telas da Catedral de Rouen. Também podemos ver os famosos "screen test" com amigos e o filme Kiss (1963). A exposição reproduz, também, um pouco do clima da Factory, seu famoso estúdio, escritório e moradia, na réplica da exposição "Nuvens de Prata", de 1966.
(Kiss, com Nuvens de Prata)

Para quem quiser se divertir interagindo, a exposição conta ainda com uma mini oficina de serigrafia (que a gente pode fazer na hora) e uma máquina de xerox que tem a função de recriar as cápsulas do tempo de Warhol (caixas onde ele guardava várias coisas cotidianas e lacrava). O problema da tal cápsula do tempo xerocada é que os visitantes são obrigados a deixar seus pertences guardados antes de entrar no Museu e ai resta muito pouco a se preservar na tal cápsula xerox. Aliás, ter que deixar as coisas guardadas foi um problema para mim na exposição: deixei meus óculos da bolsa no armário e não pude ler quase metade das plaquinhas de identificação da exposição.

Além do filme Kiss, onde intermináveis beijos projetados na parede do museu nos despertavam sensações, adorei ver a série de polaroides. Tanto os auto retratos quanto as fotos de famosos (coisa mais linda o Mick Jagger novinho!!!).

A curadoria de "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" é de Jéssica Gogan, do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, Pensilvânia, de onde vieram as obras. O curador brasileiro da exposição é Luiz Guilherme Vergara. A mostra fica até 2 de julho no Maes.

(minha serigrafia d'apres Andy Warhol feita na exposição)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

véus das palavras



Descortinar os véus
Das palavras não ditas
Das palavras mal ditas
Das palavras aflitas
Das palavras palafitas
Véus das palavras

terça-feira, 14 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

Memória Perdida


Vídeo de Felipe Pereira Barros que gosto muito. A foto abaixo tem tudo a ver com memória perdida.

balanço

sábado, 11 de abril de 2009

Instante da Palavra



...como se fora seda
como se fora véu
um livro entre as maõs
palavras cheias de vida.

Todos os sentidos são
um véu cintilante
entremeado de alegrias e tristezas.

O mundo gira.

Fora da prisão
quantas vidas ainda pra viver
quantos rios ainda pra correr
tanto mar, quantas lágrimas
e apesar de tudo
muito por saber...
sete vidas
sete selos
sete chaves
sete portais de saberes
sete estrelas
sete chapéus
sete luas
sete sóis
tanta chuva...

em meio aos sentidos
o desafio
para o dia acontecer


Poema de Graça Graúna

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O blog do vovô


Descobri recentemente que meu avô paterno, Eurípedes, de quem não me lembro (ele morreu quando eu ainda não tinha completado 2 anos de idade) mantinha um caderno de anotações dos acontecimentos importantes da família. Essa é a página onde está registrado o nascimento do meu pai, em 1928.

Meu avô escreveu no cabeçalho: "esse caderno nunca poderá ser destruído. É uma relíquia. É um pouco do nosso diário." Minha tia Nazinha (Edna) guardou o caderno. Ainda bem!
O mais estranho é o fato de meu avô não anotar no seu diário a morte de minha avó, Tercília. Ele não queria lembrar disso?

domingo, 5 de abril de 2009

"As pessoas têm que se indignar"


Em Vitória para participar do III Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, deu uma entrevista muito boa ao jornal A Gazeta. Confira algumas opiniões de Denis:

"Entre 1982 e 2000, foram estabelecidos 82 novos crimes, foi criada a Lei dos Crimes Hediondos, multiplicou-se a população prisional no país, aumentou o número de policias, e qual foi o resultado? De outro lado, o discurso descompromissado da violência como conseqüência era irresponsável, porque as pessoas morrem aos milhares. Temos no Brasil mais de 100 pessoas assassinadas por dia. E quantas são roubadas, vítimas de furtos? É preciso romper com a dicotomia. A violência tem causas sociais, sim, que precisam ser combatidas, mas demanda uma agenda específica que envolve repressão de um lado, e prevenção de outro."

"(...) Assim, com uma mão nego a violência e com outra ofereço organização, trabalho comunitário, diálogo, envolvimento com esporte, trabalho, cultura. Uma política preventiva bem feita, com um bom diagnóstico, público certo, redução de acesso às drogas, de armas em circulação. Quando eu adoto esse pacote, com repressão e prevenção de qualidade, a violência cai."

"A violência é seletiva - morrem mais jovens negros, pobres, moradores de periferia das cidades -, mas o medo é absolutamente democrático, no Brasil e no mundo."

"É fundamental entender isso. Pobreza não causa nem é igual a violência. O que tem algum grau de relação com a violência? Desigualdade. A tensão entre pessoas com muito e pessoas com muito pouco; a ausência do Estado; uma sociedade de consumo que valoriza o ter, e que também valoriza a cultura da violência. Um cara andando de Ferrari ao lado de outro que não tem dinheiro para pagar a passagem do ônibus. A chance de isso dar um coquetel explosivo é enorme. Dizemos que violento é aquele cara que assalta, mas não falamos o mesmo daquele que sonega Imposto de Renda, suborna pessoas, desvia dinheiro público. Porque se a gente apontasse, de maneira séria, onde está a maior concentração de criminosos por metro quadrado, certamente falaria do Congresso Nacional. O número de congressistas acusados e processados é enorme. E ali não há pobre."

"No Brasil, falar de valor é visto como coisa de conservador. Mas nas comunidades onde a gente trabalha, vemos que quem segura muitas famílias são as mães, que não deixam os filhos desviarem. Porque a tentação é muito grande, mas a imensa maioria das famílias do Brasil está dentro da lei. Se 5% da população pobre do Brasil estivessem no crime, a elite já estaria dizimada, porque a desigualdade é brutal."

"O problema é grande, mas é preciso que cause indignação, e não impotência. Quem fica em casa só reclamando está impotente. As pessoas têm que se indignar e cobrar. Há saída, sou otimista baseado na realidade. E tem muita coisa que cada um de nós pode fazer. A gente pode ocupar os espaços da cidade, contribuir para uma vida mais coletiva. Podemos educar nossos filhos com uma cultura mais humana, de solidariedade, e não na lógica da violência, que valoriza que eles briguem na escola, que impressionem pelo tênis ou pelo relógio que usam. Na hora de votar devemos abrir mão dos nossos interesses mesquinhos, escolher bem. Cobrar resultado do prefeito, do governador, do conselho da comunidade. Exigir uma abordagem voltada para o resultado, e não para o discurso."

"Não há dúvida de que o mercado criminoso consegue agregar tanto valor à droga por ela ser proibida e ilegal, que cria uma lógica de grupos que conseguem ter acesso a armas poderosíssimas, disputar territórios de cidades e colocar em risco a própria soberania do Estado brasileiro. Ah, então legaliza? Não, mas deve-se separar o usuário leve do traficante de drogas. O tráfico de drogas, associado à lavagem de dinheiro, deve ser duramente combatido. Enquanto as drogas forem proibidas no Brasil, as pessoas que estão comprando a sua maconha, a sua cocaína, estão contribuindo para esse ciclo de mortes a que nós estamos assistindo. Não há como dissociar uma coisa da outra. O dinheiro que sai do bolso delas está gerando milhares de homicídios. Mas o problema não é só do consumidor, é também do Estado, que deve fazer o que puder para proibir a entrada da droga e das armas pelas nossas fronteiras."

terça-feira, 24 de março de 2009

160 anos de Queimado















Oferendas na celebração de 160 anos da Insurreição do Queimado na Serra, dia 22 de março de 2009

sábado, 14 de março de 2009

Teses e poesis

Ontem no almoço um amigo me disse algo que traduz exatamente o que tenho sentido desde que voltei a estudar: "estou com saudade da literatura". Saudade da leitura fluida de um romance, do simples prazer de se deixar enredar por uma história que sabemos inventada.

Embora todo meu interesse pela teoria, acho a escrita teórica um tanto dura e repetitiva. Leio um texto teórico como quem tenta escalar o Everest. A boa literatura, ao contrário, é um abandono ao balanço da rede em sombra amena.

O texto teórico é um desafio constante (o que é ótimo). E, às vezes, é também monótono e repetitivo. Raramente é poético. Mas, podemos encontrar nele, algumas vezes, momentos de prazer e poesia. Como nesse trecho pinçado de V. Kójinov, um crítico muito ligado a Bakhtin em seus últimos anos de vida, intitulado A concepção bakhtiniana sobre poesia lírica, onde ele transcreve algumas anotações inéditas de Bakhtin:

...A autoridade do autor é autoridade do coro. A obsessão lírica é essencialmente uma obsessão coral. (...) Eu me ouço no outro, com outros e para outros. (...) O coro possível – eis uma posição firme e de autoridade. (...) Eu me encontro na voz (...) alheia. (...) Esta voz alheia, ouvida de fora, que organiza minha vida interior na lírica, é o coro possível, a voz concordante com o coro, e que sente fora de si o apoio coral possível (...) numa atmosfera do silêncio e do vazio absolutos, ela não poderia soar assim; o rompimento individual e completamente solitário do silêncio absoluto tem caráter lúgubre e pecaminoso, degenera em grito, que assusta e incomoda a si mesmo; o rompimento solitário e totalmente arbitrário do silêncio (...) é cinicamente injustificado. Uma voz só pode cantar (...) num ambiente de possível apoio coral.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Faca no coração



Estas imagens fizeram parte da exposição A Faca no coração, realizada em 1988 durante a Semana Antimanicomial, no Rio de Janeiro. A Semana discutiu a questão manicomial brasileira. Fiz as fotos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niteroi. Na época cogitava-se a desativação do hospital. Pelo que pesquisei hoje, ele continua na ativa. Porém, uma série de mudanças foram implementadas. Se alguém souber mais notícias sobre o funcionamento atual de Jurujuba, comente aqui.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Um meu espelho tão de mim diferente



Toco tuas mãos gordinhas
Pele suave que me toca
Seu olhar e o meu se procuram
Olhamo-nos em silêncios
Meu peito te alimenta e fortalece
Teu riso inocente me alimenta e fortalece
Teu sono logo vem
E te olho demoradamente nesse abandono
Um meu espelho tão de mim diferente
Um meu pedaço de gente
Em sono tranqüilo
Em abandono frágil e confiante
Em mim
Filho

Toco o vidro entre nós
Tocas o vidro entre nós
Entre minha mão e a tua um frio vidro
E mal te posso ver por entre o marejar dos nossos olhos
Lembro tuas mãos gordinhas, de pele suave
E é a elas que toco através do vidro
Entre tu e eu um grande abismo
Que nossos olhos transpõem
Onde teu sono tranqüilo?
Onde meu sono tranqüilo?
Onde o cálido som do seu ressonar no sono?
Nossos olhos se perguntam
Em abandono frágil e temeroso

Cinema Poetado









Cinemárvore literária


Um
Poe
Põe
Poesia
Poe Tree, Poetry

Na filmografia
Glauber
Stone

e um Eryk Rocha

Ruy dosa Guerra

entre Cinema e Literatura

De Rodrigo de Araújo (Drigo)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Nós vemos a cidade como a cidade nos vê






Instalação do artista Heraldo Ferreira Borges na praça Pio XII.

A Obra também integra a Bienal do Mar, que acabou sexta-feira, dia 6 de fevereiro.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Desmonte


Jo Name desmontando sua exposição Atenção Arte! na madrugada do dia 6 de fevereiro. Atenção Arte é uma exposição integrante da Bienal do Mar, proposta de intervenção urbana nas ruas de Vitória que acabou dia 6 de fevereiro de 2009.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Paralelos

(foto: Felipe Obrer)

As chuvas constantes desde novembro pintaram o caminho de verdes. Todos os verdes. O céu entreabria azul, mas estava matizado de brancos e de cinzas de nuvens de diferentes formatos. Se fosse um esquimó ela saberia o nome de cada branco que flutuava no azul. Ela observava toda a exuberância da natureza, em cada detalhe, guardando em seus olhos cada verde, cada azul e cada branco que podia. Ela olhava com seus olhos e neles guardava a paisagem para dar para ele. Ela sabia que ele só via cinza, semi-obscuridade e medo. Então guardava em seus olhos toda aquela paisagem que a chuva fez renascer para que ele também pudesse ver que a vida continuava para além das paredes cinza, dos muros altos e da dor. Essa dor, ela sabia, não podia aliviar ou dividir. Não podia tomar para si, aliviando-o da sua parte. Ela sofria sua própria dor, e ele sofria a dele. Isolados. Dores paralelas. Mas havia todos os verdes, azuis e brancos. Havia uma vida, que logo seria dele também. Como quem recolhe nas mãos em concha um pouco da água da nascente, ela recolhia as cores da paisagem para matar a sede dele. Até que ele pudesse beber a paisagem com seus próprios olhos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Chaga



Tudo em mim é luto. Tudo é sangue vivo, chaga ardente.
Tudo é um vácuo sem respostas, um imenso túnel escuro.
Quero suas palavras banais, suas pequenas miudezas cotidianas.
Preciso descansar dessa ânsia, desse pesar insano,
No remanso de suas abstrações leves e suas cores primárias.
Talvez você me fizesse entender o sentido da dor.
E me trouxesse a calma de saber que nenhuma dor é infinita.
Ou talvez me desse um remanso onde pousar meu corpo
E me afagasse os cabelos em silêncio.
Talvez tirasse de mim a culpa que pesa meus membros
E essa névoa que cobre meu olhar.
Pois tudo em mim agora é névoa translúcida
Espaço inexistente onde caminho tateante e trôpega e só.

Proteção

(foto: Cristiane Neves)


Estou contigo a cada hora do dia.
Minha mão está no teu ombro,
Meu pensamento está em ti,
Meu coração no teu.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Medo do mar

Com medo do mar,
Minha ilha natal se atou
Com pontes e aterros
Ao continente e a outras ilhas,
Suas filhas menores.

Minha pobre ilhazinha,
Varrida de vento sul,
Por medo de ficar à deriva,
Criou raízes sobre os canais e a baia,
Afogou seu porto,
Escondeu seu horizonte.

Hoje moramos nós em aterros,
Trafegamos sobre aterros,
Trilhamos nossos caminhos
Sobre um mar que já se foi,
Que um dia esteve ali.

Ah, minha pobre ilha,
Que medrosa e tímida
Alarga-se sobre o mar,
Estende-se sobre os manguezais,
Recria-se outra, continental,
Metropolitana.

Não tenha medo do vento sul
Que lhe varre e perpassa
Nas tardes de domingo.
Deixe-se estar à deriva nesse mar,
Deixe-se encher de horizonte.

domingo, 26 de outubro de 2008

hermetando

A flauta desenha arabescos
nos meus ouvidos,
revirando o caldo pardacento
das dúvidas e das certezas
na funda panela oca
do meu pensamento.

Tento ajustar o compasso
e o rítmo já é outro.
me descompasso toda.
tomo fôlego,
mergulho no aquário.
Caço estrelas, desenho núvens,
conto os aviões que me sobrevôam.
(quem me sobrevoa neles?)

sábado, 25 de outubro de 2008

Onde estão os lugares que não existem?

-Tanzânia.
-heim?
-Tanzânia. O que você sabe da Tanzânia?
- Como assim? A terra do Tazz?
- Tazz?
- O diabo da Tanzânia... o desenho, lembra?
- É Tasmânia, ô, lesado!
- Tanzânia, Tasmânia ... nem faço idéia de onde ficam os dois...
- Tasmânia acho que é perto da Austrália. Ou é na Austrália. Ou nem existe, não sei direito. Se existe, deve ser no oceano Índico.
- Por quê?
- Sei lá! No oceano Índico é ficam esses lugares que não existem. Ou que existem e ninguém sabe direito.
- E a Tanzânia?
- Tanzânia, acho que é África. Olha ai no google...
- Pô, olha você. Não estou interessado na Tanzânia. Por que esse interesse pela Tanzânia agora?
- Ah, sei lá! Interesse nenhum. Me veio, sei lá. Olha aqui: África Oriental. Faz divisa com Uganda, Quênia, Moçambique, Malawi e Zâmbia. E ainda com a República do Congo, pelo lago Tanganica... E é banhado pelo oceano Índico. Sabia que tinha alguma coisa de oceano Índico!
- O tal oceano que banha os lugares que não existem ou que existem e ninguém sabe direito?
- Deixa de ironia... você também não sabia nada da Tanzânia. Olha aqui: aposto que já ouviu falar de Zanzibar... fica na Tanzânia.
- O azul de Zezebel, num céu de Zanzibar, feliz constelação... de quem é essa música mesmo?
- Não lembro. Pepeu? Tá com cara de música do Pepeu...
- E a Tanzânia, que mais que fala ai?
- Hum, você nem estava interessado...
- Ah, um lugar que tem Zanzibar deve ser interessante. Zanzibar não é um país também?
- Não. É um arquipélago que pertence à Tanzânia. Ah, mas era, olha aqui: Tanganica e Zanzibar eram países diferentes que se uniram e formam hoje a Tanzânia. Que, por sua vez, é considerado o berço da humanidade. Lá foram encontrados fósseis dos primeiros seres humanos. E também as mais antigas pegadas humanas na face da terra...
- Então é a terra de Adão e Eva?
- Pô, olha só: é lá que ficam o Kilimanjaro e o Lago Vitória. Então, já vi alguns documentários sobre a Tanzânia. Como é que eu não lembrava nada sobre a Tanzânia?
- A gente tem tanta coisa pra lembrar...quem é que vai se preocupar em lembrar da Tanzânia? Aliás, por que pensar na Tanzânia agora?
- Sei lá... deve ser um lugar lindo... lagos, cachoeiras enormes, arquipélagos, o Kilimanjaro... As neves do Kilimanjaro...
- Eu vi esse filme... é com o Bogart, né?
- As neves do Kilimanjaro...? Acho que não. Não é não. Acho que é com a Ava Gardner e aquele outro, lembra a música da Rita Lee... se a Débora Kerr que o Gregory... Gregory Peck!
- Não, Bogart e aquela outra, Katherine... a que tem Alzheimer...
- Hepburn... Ela tem Alzheimer?
- Acho que sim... Mas me fala do seu interesse repentino pela Tanzânia...
- Ah, nada. Só me lembrei da Tanzânia. Sei lá... de repente lembrei que esse lugar existe e que moram pessoas lá, outras viajam pra lá... não sei.... me imaginei lá, de repente.
- Você parece doida!

sábado, 18 de outubro de 2008

As flores de plástico não morrem...

Incompatibilidades

Tuas coisas leves,
Tuas frases breves,
Tuas mãos suaves.

Minhas mãos suadas,
Minhas frases truncadas,
Minhas tensões elevadas.

Teu olhar fugidio,
Meu olhar bravio,
E entre nós o frio.

Tua idéia concisa
Não resiste à brisa
Dessa pobre poetisa!

domingo, 12 de outubro de 2008

Samba da benção


Sempre bom ouvir:



É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não

Senão é como amar uma mulher só linda; e daí?
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado,
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não...

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Vínícius e Baden

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Nada que não rime

Nada tão complexo
Que não faça nexo no teu plexo
Que não mova teu sexo
Em busca do convexo

Nada de tão forte
Que te tire do teu norte
Que te deixe sem aporte
Ou te leve para a morte

Nada com sentido
Que te deixe carcomido
Que não te saia pelo outro ouvido
Que não possa ser espremido

Nada tão importante
Que te deixe tão distante
Que torne menos pulsante
Algo em nós tão relevante

Nada de tão ruim
Que te tire de mim.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Só hoje

"E afinal o que eu quero é fé...
É calma...
É não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isso. Abra as eclusas!
E basta de comédias em minh'alma..."
(Fernando Pessoa)

Hoje senti vontade de me organizar. Tirar a poeira da alma, passar um pano molhado nos sentimentos, limpar as gavetas do coração, jogar fora o lixo do desejo, colocar os arquivos da memória em ordem alfabética, tirar as teias de aranhas do teto da saudade. Senti vontade. Senti vontade de mandar consertar minha bússola quebrada, ajustar o relógio desse nosso tempo louco. Faxina geral em mim.
Olho em volta: a casa brilha, cheira bem. Quase tudo está em seu lugar. Não é um reflexo de mim. Tenho dentro de mim uma casa velha como o mundo, um castelo assombrado por velhas lembranças e velhos fantasmas. Incômodo? Não. Conforto. E também excitação de saber que sempre estarei descobrindo um cômodo a mais, uma porta secreta pra algum lugar estranho e novo.
Deixo tudo como está. Guardo no armário os baldes e as vassouras com os quais pretendia me limpar. Tenho preguiça de começar essa limpeza. Tenho apreço pelas minhas estantes empoeiradas e a bagunça desse meu pequeno mundo caótico que me surpreende de vez em quando.

domingo, 21 de setembro de 2008

Dois náufragos

(Primeiro de Outubro)

No teto, flutuando como náufragos
No mar azul turquesa dos lençóis,
Nossos corpos brancos.

Mordo morde minha carne. Sua
Carne branca pele quente
Dentro de mim,
Sobre você,
Dentro, fora, sobre,
Nem eu, nem você:
Dois náufragos refletidos
Num mar azul turquesa
De lençóis.

domingo, 14 de setembro de 2008

Noturno




Passeando à noite por Vitória ao som de Pedro Abrunhosa...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Cruzamento

Cruzo a cidade
em constante construção
(ela e eu).

Cruzo a cidade,
revirada
remodelada
(Atenção: homens trabalhando)

Cruzo a cidade presépio
A cidade túmulo
A cidade sirenes
A cidade jardins
A cidade encruzilhadas
De estranhos cidadãos
A cidade sol com o céu sempre azul.


Cruzo a cidade sem fôlego:
Preciso de ar
Preciso de afago
Preciso transformar esse minério que respiro
Em Carlos Drumond de Andrade.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Chuva


Chovia na janela. Chovia. Pingos finos, quase garoa, mas chovia. Depois de meses de poeira e calor, inverno fake, a chuva compassava música no quintal, aromatizava a casa de terra molhada. Ela chovia com a chuva, agasalhada, meias nos pés, café quente no início da noite, muita preguiça de tirar a roupa e deixar a água morna lavar o dia da pele. Ela chovia o seu falso inverno. Andava pela casa de meias, sem rumo certo, quarto, sala, cozinha, tentando lembrar de algo por fazer e sem vontade de fazer algo. Largar-se na frente da tv, talvez? Melhor ler um livro. Nem tv, nem livro, nem música – a chuva trilhassonorava a noite. A chuva que vinha das nuvens e a sua chuva interna, nebulosa, cumulus nimbus na alma. E ela abriu seu guarda-chuva cinza e agasalhou sua solidão.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Vestidas de Branco





Exposição de Nelson Leirner no Museu da Vale

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

grafitado a fogo




desenhos feitos com fogo pelo João Victor

terça-feira, 29 de julho de 2008

Pessoas, passado e futuro

Algumas pessoas a gente nunca mais viu. Passado. Mas, quando encontra um dia, é como se nunca tivessem se perdido da gente. O brilho no olhar é intenso, o abraço ainda é apertado e força do gostar é a mesma.
Algumas pessoas, porém, são mesmo passado. E a gente, quando as revê, é como se tivesse visto um estranho que não quer conhecer. Elas não fazem mais parte da vida da gente. Não sobrou nenhum lugarzinho esquecido no fundo do coração para acolhê-las novamente. A gente nem tem curiosidade sobre o destino delas: não quer saber quem são agora, o que fazem, se têm filhos ou se estão apaixonadas. A gente não quer conhecer de novo.
Esse sentimento (ou falta de) não tem nada a ver com ressentimentos ou mágoas. Tem a ver com a descoberta de que aquela pessoa, que em determinado momento foi tão importante e determinante, não é alguém com quem se queira compartilhar nada, muito menos o futuro, seja ele qual for. Reatar um laço perdido é propor algum tipo de aliança para o futuro. E tem gente que a gente não quer ter como parceiro para o futuro. A relação já deu o que tinha que dar e não é possível estabelecer outra.
Eu não sabia que tinha pessoas assim na minha vida. Descobri agora.

sábado, 28 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 18 de maio de 2008

Um roteiro


Meu amigo,
Você mandou me perguntar se o meu roteiro já está pronto. Está. Meu roteiro é só essa foto em anexo. Não estranhe a falta de texto e marcações de câmera. Explico: Essa foto foi feita num fim de tarde na praia e todo o filme vai ser construído em volta dela: 35mim, preto e branco. Uma foto capturada num fim de tarde solitária, de vento suave encrespando de leve o mar. Uma tarde em que, como o mar, eu me deixava varrer pelo vento suave.
Eu e minha câmera olhávamos em volta, atravessadas de vento e brisa marinha, vagueando na areia como guruçás noturnos. Na linha que divide o mar e o céu meus olhos viram a foto: um guarda-sol ligeiramente inclinado e, ao lado dele, de costas para mim, um homem jovem, alto, movimentando o corpo num ritmo lento de alongamento. Com a cumplicidade da câmara observei-o mais de perto, naquele fim de tarde suave e ventio. Ele se inclinou para a direita. Apertei o botão. A foto estava ali, latente, dentro da câmera.

(Ai, o corpo do rapaz na tarde solitária do Leblon...
Eu, voyeur, estudo
As coxas, os ombros,
Seus movimentos na lenta ginástica.
Ah, rapaz... que malícia a sua colocar
Seu corpo
Assim, contra o mar e o céu
Nessa tarde solitária
No Leblon.)

Esse é meu roteiro. Ele fala das delícias da solidão num fim de tarde marinha, da liberdade do olhar e do desejo do voyeur. Não somos todos nós, cinéfilos, uns solitários que prezamos a liberdade do olhar? Nós não nos escondemos no escuro de uma sala de projeção para observar outras vidas, mesmo que falsas? Não buscamos, com uma sede que nunca se aplaca, viver outras histórias que não a nossa? Como o personagem de A Rosa Púrpura do Cairo, estamos sempre lá, na sala escura, esperando, talvez, que o nosso personagem predileto saia da tela e nos transporte para uma outra vida, ou um outro filme.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Uns olhos


A cerveja gelada, o vento noroeste que arrepiava a pele, a cidade deserta: qual desses fatores me alterava assim os sentidos? Nem mesmo pensava sobre isso. Só sentia que alguma coisa estava aguçada. O gosto da cerveja amarga, o efeito do vento na epiderme, o sabor marinho da casquinha de siri, tudo estava potencializado, multiplicado por cem. Era como se de uma hora para outra as coisas todas ganhassem um sentido ainda não vivido. Como se eu visse tudo pela primeira vez. Um pouco mais de pimenta: queria desfrutar ao máximo daquele súbito super-poder que me chegou no início da noite. Ardor. Mais um gole de cerveja: amargo. E tinha uns olhos, que acompanhavam cada movimento meu, liam meus lábios, acompanhavam os volteios do vento em meus cabelos. Uns olhos... Qual a cor desses olhos? Pretos, ou castanho escuros? O mundo se resumia no travo amargo da cerveja, no ardor da pimenta e naqueles olhos que eu procurava desvendar. Castanhos, inequivocamente castanhos, com alguns matizes mais escuros e outros dourados. Os olhos me diziam alguma coisa, que eu respondia, aceitava, discordava. Um diálogo de olhos. Comecei a medir a distância entre eles, depois a proporção deles em relação ao nariz. Um nariz grande. Sempre gostei de grandes narizes: dá mais força ao rosto todo. E bocas grandes, cheia de dentes, com lábios carnudos. Essa era uma boca assim, e tinha certo jeito de escultura. Não uma escultura de mármore, perfeita, mas como talhada a canivete na madeira bruta. Não era uma boca perfeita, nem bem desenhada. Parecia até mesmo sobrar no rosto. O conjunto do rosto não era bonito. Pelo menos não era o que se convenciona chamar de beleza masculina, não possuía a harmonia e a simetria que o conceito de beleza exige. Mas me prendia o olhar, como se aqueles olhos me guiassem para aquele rosto imperfeito, forte e, por isso, belo. De que falávamos? Do tempo, de música, de projetos futuros, pequenas idéias em comum. Não importava o diálogo das vozes. O diálogo dos olhos era o mais intenso, o mais denso, mais prenhe de sentidos. O bar quase vazio, o vento frio, a rua deserta, tudo ganhava um novo sentido visto através desses olhos que me viam. Olhos que viraram mãos, em diálogo de afagos, que viraram bocas que se confundiam em líquidos e línguas, que viraram pele que subitamente se colam de desejo, se penetram, se fundem. Mas ai não havia mais o bar deserto, a rua molhada da chuva que passou. Havia pedras, mar batendo e uma traineira passando motor, motor, motor, na noite escura.




sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Via Láctea: delicadas emoções e nervos expostos





“Solidão é quando a gente não tem com quem falar que está sozinho” (fala do personagem Júlia)




A Via Láctea, de Lina Chamie, é um dos filmes mais intensos e perturbadores que vi ultimamente. (Pausa. Branco). Intenso e perturbador são palavras muito enfáticas e contundentes, que mais ou menos encerram a possibilidade de reflexão racional sobre o filme. Mas é uma reflexão racional o que quero fazer? O filme não me atingiu racionalmente. Ele me atingiu fisicamente: expôs meu oco, o buraco mal disfarçado da minha confusão emocional.

Vesti A Via Láctea por fora e por dentro e sai do cinema repleta das estrelas mortas que ainda teimam em brilhar nesse céu. Um céu que não começa nas nuvens, mas na epiderme da grama mais rasteira, na nossa epiderme exposta à poesia do caos humano, do caos urbano, do caos do amor, do caldo mal cozido de nossa dor de ser humano e amar e desamar, de pensar e se confundir, de lembrar e ser lembrado. E de esquecer. A Via Láctea poderia ser mais um história de amor e desencontro. Mas Lina Chamie optou pela via mais difícil e bela: a da poesia. E transformou seu filme numa obra de arte, no sentido mais amplo e contemporâneo do termo.

Para quem gosta de se ater ao fio da história, a de A Via Láctea é assim: Heitor, não por acaso um professor de literatura, e Júlia, duble de atriz e veterinária, se encontram e desencontram nos caminhos da grande cidade de São Paulo. Uma discussão violenta ao telefone faz com que Heitor saia de casa para ir ao encontro de Júlia. A história se resume na busca de Heitor por Júlia. E nessa busca ocorre também o encontro de Heitor com ele mesmo. São as lembranças de Heitor que nos contam sobre o casal e seu amor, tendo como pano de fundo e interlocutores a cidade e o trajeto entre o apartamento de Heitor e a casa de Júlia.

Mais que o cenário desse amor, a cidade de São Paulo é um personagem importante na construção do filme. São suas vias e seus remansos que determinam a interação entre os personagens. É a cidade que serve de fio condutor para essa história construída pelas lembranças e pela imaginação de Heitor. Uma história que pode mudar a qualquer hora, pois não há separação entre o que é a lembrança real, o sentimento ou a imaginação do apaixonado enciumado interpretado por um maravilhoso e maduro Marco Ricca (também produtor do filme).

A Júlia de Alice Braga (a Angélica de Cidade de Deus) a princípio parece não existir. Nós a vemos apenas com o olhar de Heitor, idealizada pelo amor de Heitor. Ela só aparece como Júlia no fim do filme. E ai percebemos a grandeza da atriz Alice Braga, que sutilmente construiu o personagem mítico que Heitor ama e o personagem real Júlia.

Toda a narrativa é construída com a matéria bruta da mente de Heitor e amalgamada com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Mário Chamie, entre outros. E também com a música de Gil, Satie e Mozart, misturadas à clássica abertura de desenho animado, o burburinho da cidade e a participação luxuosa e dionisíaca do Grupo Oficina. Tudo isso sobreposto às imagens poéticas da fotografia de Kátia Coelho e a primorosa direção de arte de Mara Abreu formam um palimpsesto de sentidos às vezes difícil de decifrar. Mas que toca na alma da gente com força. Um material delicado e denso que Lina Chamie e a equipe dominam com absoluta precisão e delicadeza. Um roteiro bem construído que a fotografia, o som, a direção e a atuação souberam interpretar com a maestria de quem trabalha com o coração desperto.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Fragmentos de um roteiro 2

Exterior, dia.
Sara chega ao prédio para começar a trabalhar, pega a chave com a faxineira e abre a porta. Acende as luzes da sala escura, tranca a porta por dentro e começa a olhar para tudo em volta. Vai até o consultório, uma sala ampla e clara. Abre as cortinas e janelas. Olha os livros enfileirados nas estantes com interesse e aprovação. Sobre a mesa, alguns objetos chamam atenção: uma pequena banda de Moebius em metal, uma escultura mínima de um cavalo correndo. Pega a escultura e examina com interesse: é perfeita, com detalhes realistas e movimento. Procura o nome do escultor na peça. Não acha. Coloca a peça no lugar e examina a agenda. Percorre com os dedos a data. Horários marcados das nove e meia da manhã até 10 da noite. Sorri.
Olha ainda alguns cartões postais sobre a mesa. Pega um com uma foto em p&B de Paris e lê: saudades... amor. C. Deixa o cartão no lugar rapidamente, como quem se arrepende da indiscrição.
Volta à sala de espera. Algumas flores murchas no vaso de cristal caro lhe chamam a atenção. Pega o vaso com cuidado e leva até a pia do banheiro. Tira as flores, despeja a água, coloca água nova e retira as flores já murchas, procurando dar ordem e harmonia ao novo arranjo. Examina com atenção e recoloca na sala de espera. Acerta algumas almofadas e vai pra mesa da secretária. A sua mesa, de agora em diante. Senta na cadeira macia de design moderno e examina as gavetas. Quase nada dentro delas. Uns papeis em branco, algumas anotações apressadas. Muitos clips coloridos, canetas de vários modelos. Um brinco sem par. Olha para computador à sua frente. Só então nota que tem um papel colado nele e tem alguma coisa escrita no papel. Lê:
Sara,
Bem vinda. Espero que a simpatia mútua do nosso primeiro encontro continue sempre. Acho que vou gostar de trabalhar com você. Se ainda não tomou café, tem cafeteira elétrica e pó no armário da cozinha. Tem algum dinheiro na caixinha de marfim na minha mesa. Por favor, compre alguns biscoitos casadinho na confeitaria em frente ao prédio e uvas na quitanda. Gosto de beliscar durante o dia. Veja o que você gosta de comer a compre também. Vai ser um dia duro. Chego às dez. O Jader espera. Até mais. M.
Sara lê o bilhete com o rosto contraído. Fica pensativa. Retira o papel do monitor, dobra com cuidado e coloca na última gaveta. Abre as portas do que ela acreditava ser um armário e vê uma pia, cafeteira, armário de parede com copos, xícaras e outros utensílios de cozinha. Faz o café e vai até o consultório pegar o dinheiro na caixinha de marfim. Abre a caixa e vê, com surpresa, um brinco igual ao que achou dentro da gaveta da secretária. Pega o brinco e examina com mais atenção do que examinou o outro. É um brinco simples de prata, mas com design sofisticado de joalheiro. Coloca de novo na caixa, pega o dinheiro e sai para a rua. Quando volta ao consultório encontra um rapaz um pouco mais novo que ela sentado no chão do corredor, em frente à porta do consultório. Roupas meio fora de moda, óculos de lentes grossas que o deixam mais velho, cabelos desleixados. Sara pede licença a ele pra abrir a porta, mas ele não sai. O rapaz diz a ela que não adianta entrar, que a porta está fechada. Não tem ninguém ai, diz. Ela mostra a chave com um sorriso. Ele se levanta, meio a contragosto e olha pra ela com curiosidade. Pergunta: Quem te deu a chave do consultório?
Sara: Dr. Marco. Sou a nova secretária dele.
Jader: você não parece secretária de psicanalista.
Sara: como é que deve parecer uma secretária de psicanalista?
Jader: sofisticada, linda e sensual.
Sara: muito obrigada. È uma maneira bem sutil de dizer que não sou nada disso.
Jader (desconcertado): Não, você é linda e sensual.
Sara (com cara séria e professoral): mas não sou sofisticada, né?
Jader (ainda mais desconcertado): não foi isso que quis dizer.
Ela sorri, abre a porta e convida o rapaz pra entrar com um gesto.
Ele se senta no canto do sofá grande, encolhido. Ela vai até a cozinha e retira o café da cafeteira, e coloca na garrafa. Desembrulha os biscoitos e os coloca num vidro grande. Lava as uvas e leva até a geladeira, dentro do consultório.
O rapaz continua na mesma posição, encolhido no sofá.
Ela olha pra ele como quem o nota pela primeira vez e pergunta se ele quer café.
Jader: Não. Quando tomo café fico muito nervoso. Eu já sou muito nervoso.
Sara: Se quiser alguma coisa é só falar, Jader.
Jader: Como é que você sabe meu nome? (assustado)
Sara (continuando seus afazeres): sou secretária do seu médico, esqueceu?
Jader (enfático): Ele não é médico, é psicanalista.
Sara: Qual é a diferença?
Jader: Como secretária dele você deveria saber.
Sara (divertida): Sou nova na profissão. Não sei. Me explica.
Jader (sério, levanta-se a segue pelo consultório): Médico pratica a medicina. O Marco é psicanalista, analisa as pessoas do ponto de vista da psique. O Interior da mente delas. Isso não tem nada a ver com a medicina.
Sara: Pensei que tivesse relação. Mas ele é médico.
Jader: É formado em medicina, mas aqui não é médico. Médico cuida do corpo. Ele cuida da mente.
Sara: Não é tudo uma coisa só?
Jader (assustado): De onde você tirou essa idéia? Claro que não. O corpo é o que sustêm a mente. A mente é totalmente independente do corpo.
Sara: Pois a minha não funciona quando sinto dor de dentes. Acho que você está falando de alma, não de mente.
Jader: Não acredito em alma.
Sara: Não falei de alma do outro mundo, Jader. Falei dessa instância etérea que é o nosso ser.
Jader: Você é algum tipo de mística, religiosa? Não pode trabalhar aqui não. Nós, que acreditamos na psicanálise, não somos místicos.
Sara: Jung acreditava na força do pensamento mítico.
Jader (nervoso): Jung era um charlatão! Marco não conversou com você antes de te contratar? Você não serve pra trabalhar aqui, não. Não pode ficar falando essas coisas pros pacientes dele.
Sara (cautelosa): Tem razão, Jader.
Jader: Tenho razão em que?
Sara: Em dizer que não posso ficar falando com os pacientes. Isso é serviço dele. Sente aí, pegue uma revista e espere ele chegar. Não falamos mais, tá bom?
Ele para, desconsertado. Volta para a poltrona cabisbaixo e senta no mesmo canto onde estava. Olha em volta e pega uma revista. Folheia sem interesse e larga no sofá. Levanta-se e vai até ela.
Jader: Não, prefiro conversar. Já li todas essas revistas daqui. Você tem que falar pro Marco comprar revistas novas.
Sara: Vou dar o recado.
Jader: Isso não é um recado. È sua função, como secretária, zelar pelo bem estar dos pacientes.
Sara: Não. Minha função é zelar pra que tudo ande bem. Quem tem que zelar pelo bem estar do paciente é o médico.
Jader: psicanalista!
Sara (já sem paciência): É, psicanalista.
Silêncio
Jader quebra o silêncio: Desculpa. Não converso muito com as pessoas. Não sei o tom que usar numa conversa. Fui grosseiro com você.
Sara (olhando nos olhos dele): Não se preocupe.
Jader: Você leu Jung?
Sara: E também um pouco de Freud.
Jader: Você é estudante de psicologia? Quer ser psicanalista?
Sara (sorrindo): Não. Trabalhei numa livraria.
Jader (decepcionado): Sei.
Sara: Você estuda?
Jader (entusiasmado): Entrei na faculdade aos 17 anos. Sou precoce (ri). Mas não terminei o curso. Fiquei doente.
Sara: Que pena. Doença grave?
Jader (rindo alto): O que você acha que estou fazendo aqui num consultório de psicanalista?
Sara: Você mesmo disse que ele não é médico. Não cuida de doentes.
Jader (surpreendido com a resposta): Tem razão. Mas existem doenças da mente também. Sou esquizofrênico.
Sara (olhando direto pra ele): Você tem visões, essas coisas?
Jader (subitamente triste): Ás vezes ouço coisas. Mas não sempre. Mas não se preocupe comigo. Nunca ataquei ninguém. Ri.
Sara (rindo): Não estou com medo de você não, Jader. Conheço muitos malucos na minha vida. Minha família é cheia deles.
Os dois riem, descontraídos.
Jader: Me dá aquele café?
Sara: Não. Você disse que fica nervoso. Tenho medo de maluco nervoso.
Jader (rindo): Você é legal. Não vou ficar nervoso, não. Pode me dar o café. Tem leite?
Sara: Tem leite em pó. Serve?
Jader: Gosto com bastante leite em pó, pra ficar aquela papinha de leite no fundo.
Sara: Eu também. Vou preparar pra nós dois.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Fragmentos de um roteiro

Interior. Luz fria de um corredor de prédio comercial.
Sara, uma jovem de 20 e poucos anos, está parada no corredor, em frente à uma porta, sozinha. Vacila um pouco e toca a campainha. A porta se abre e aparece um homem de cerca de 30 anos, muito bonito, alto, e sorridente. Close no rosto de Sara (espanto por ver um homem tão bonito).
Sara: Consultório do Dr. Marco?
O homem sorri e faz que sim com a cabeça.
Sara: Oi, Meu nome é Sara. Eu liguei hoje cedo, pelo anúncio. O Dr. Marco...?
Close no rosto dele: sorrindo, avalia com os olhos a mulher.
Marco: Oi, Eu sou o Marco. (Indica com a mão a poltrona e sentam-se um em frente ao outro) Você tem experiência em consultórios?
Sara (séria): Nenhuma, mas tenho experiência com pessoas. Já fui vendedora. Não deve ser muito diferente, acho.
Marco: É, tem razão, aqui também é um trabalho na área de vendas.
Sara (sorri e se descontrai, surpresa com a resposta): Você vende felicidade, não é?
Marco (sorri): Mais ou menos. Você vendia o que?
Sara (encolhe os ombros): Livros. Trabalhei numa livraria.
Marco (sério): Esse foi seu primeiro emprego?
Sara (séria): Não, antes disso trabalhei num jornal, na minha cidade. Fazia pesquisa para a redação.
Marco (sério): Que tipo de pesquisa?
Sara: (séria): Material para fomentar as matérias dos jornalistas: vida de personalidades e artistas, história de bairros, empresas e instituições, essas coisas.
Marco: (demonstrando interesse): Trabalho interessante. Deve ter te ajudado bastante quando você trabalhou na livraria.
Sara (sorrindo): É verdade: não li todos os livros que vendi, mas li tantas resenhas e sobre tantos autores que posso convencer qualquer um que o livro é ótimo.
Os dois riem, olhando-se fixamente. Ele demonstrando interesse, ela, um pouco tímida.
Marco: Você estuda?
Sara (séria subitamente): Não. Fazia Artes Plásticas, mas abandonei o curso. Vou fazer um novo vestibular.
Marco (demonstrando interesse): Por que parou?
Sara (encolhendo os ombros): Descobri que sou só uma apreciadora de arte, mas não tenho o menor talento. Vou tentar vestibular para Letras.
Marco (brincando): Só não vai descobrir que é só uma apreciadora de literatura, mas não tem o menor talento...
Os dois riem. Depois fica um silêncio meio constrangido.
Ele quebra o silêncio: Você pode começar amanhã de manhã? Começo a atender às 10h, então você tem que estar aqui às nove. A faxineira vai estar aqui. Ela trabalha no prédio. Vou avisá-la hoje que você começa a trabalhar amanhã às 9h. Minha agenda está dentro do consultório. O que você tem que fazer é olhar o que tenho na agenda, atender telefone e organizar as fichas dos pacientes. Nada de complicado. Mas tem outro trabalho que precisa ser feito: escrevo artigos e preciso que você digite esse material. Você é boa digitadora?
Sara: Sou razoável. Nunca contei quantas palavras faço por minuto. Digito meus próprios textos e algumas coisas de trabalho. Se você precisa de uma secretária muito experiente nisso, eu não sou indicada. Mas acho que a prática pode melhorar isso. Você não vai estar aqui amanhã quando eu chegar?
Marco: Não. Só chego às 10. É o horário do meu primeiro paciente. O nome dele é Jader. Ele geralmente chega cedo. (sorrindo): vai estranhar de não encontrar a porta fechada.
Sara: Seus pacientes tinham que esperar você no corredor do prédio?
Marco: Pois é. Ainda bem que eles são pacientes.
Ambos riem do chiste. Silenciam. Fica um silêncio meio constrangido no ar até que ela se levanta e pergunta: posso ver seu consultório? Nunca vi um divã de psicanalista ao vivo...
Ele ri: não tenho divã. Tenho uma poltrona confortável para os pacientes e outra pra mim.
Sara: ah! (decepcionada). Então tá tudo certo? Começo amanhã, ok? Como é o nome da faxineira?
Marco: faxineira?
Sara: sua faxineira, que trabalha no prédio. Ela está com a chave, né isso?
Marco: É. Keyla. O nome dela é Keyla. Pode pegar a chave com ela. Vou avisar hoje.
Sara: Então, tchau.
Marco: até amanhã.
Sara: Até.
Nenhum dos dois se move. Ficam olhando um para o outro por um longo tempo. Fade