Amanhã é o dia mundial da fotografia pinhole. Essa foto ai fiz hoje, pegando carona na latinha do professor Jo Name, no Centro de Artes, durante a oficina oferecida por ele e pelo professor Fábio Goveia, em homenagem à data. No primeiro plano, minha Caloi Terra e ao fundo o pezinho de cacau do Cemuni IV.
Quero conferir a exposição do Marcelo Gandini na Homero Massena. Gandini tem um trabalho muito consistente e essa nova exposição promete. Parece que ele está unindo suas duas faces numa só. A abertura será dia 28, às 20h. Dia 13 de maio, às 18h Gandini estará na galeria para um bate-papo com quem aparecer. A exposição pode ser vista das 10h às 18h, na galeria Homero Massena, Cidade Alta.
Na exposição Projéteis, Gandini reflete e pretende nos fazer refletir sobre a banalização da violência na sociedade. 12 alvos de treinamento de tiro perfurados por disparos de arma de fogo, pequenas caixas de acrílico com projéteis deformados utilizados nos disparos e os nomes das vítimas fatais atingidas por eles são os convites para o espectador refletir sobre a violência.
O artista plástico Marcelo Gandini também é o sargento Gandini, da Polícia Militar. A violência é matéria prima do seu trabalho na polícia. Longe de se acomodar numa vida de sargento, Gandini mostra sua inquietação utilizando os mais variados e inusitados meios. Restos de papel fotográfico dispensados pelos laboratórios de revelação viram expressão pura nas mãos do cara. Um pequeno barco, a Grandepequenacatraia, na baia de Vitória recebe uma busina de navio, na Bienal do Mar. E agora, unindo seus dois trabalhos, os projéteis utilizados para tirar vidas nos levam a pensar sobre a preciosidade que é viver. Viver em paz, sem sermos alvos fáceis de loucas balas perdidas.
Hoje fui ver a exposição do Andy Warhol, no Maes. Se considerarmos o universo da produção do cara, a exposição tem poucas obras. Mas, é o suficiente para mostrar a diversidade das atividades do inquieto artista. Papa da Pop Art, Warhol queria mesmo era ficar rico com sua arte. Inventou, para isso, um jeito de reproduzir com menor esforço suas criações e vende-las para quem se dispusesse a pagar o melhor preço. Ser um mercenário da arte (coisa que ele próprio admitia), não o torna menos artista. Suas criações são pesquisas profundas sobre a visualidade, a impermanência da arte e o simulacro da obra. Além disso, Warhol deu novo significado ao cotidiano.
(Screen test, com Nuvens de Prata)
A Exposição do Maes - "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" - deixa bem claro a diversidade dessas pesquisas de Andy Warhol: além das serigrafias já conhecidas de todos (e reproduzidas ad infinitum em todos os suportes possíveis), a exposição traz para Vitória trabalhos poucos conhecidos e difíceis de encontrar, tais como os filmes em 16mm e os retratos e auto retratos em polaroides (obras lindas). Num dos filmes, Empire State, ele gravou por 8 horas seguidas, registrando as nuances das mudanças da luz do dia até a noite, num trabalho que lembra o impressionista Monet e as suas telas da Catedral de Rouen. Também podemos ver os famosos "screen test" com amigos e o filme Kiss (1963). A exposição reproduz, também, um pouco do clima da Factory, seu famoso estúdio, escritório e moradia, na réplica da exposição "Nuvens de Prata", de 1966.
(Kiss, com Nuvens de Prata)
Para quem quiser se divertir interagindo, a exposição conta ainda com uma mini oficina de serigrafia (que a gente pode fazer na hora) e uma máquina de xerox que tem a função de recriar as cápsulas do tempo de Warhol (caixas onde ele guardava várias coisas cotidianas e lacrava). O problema da tal cápsula do tempo xerocada é que os visitantes são obrigados a deixar seus pertences guardados antes de entrar no Museu e ai resta muito pouco a se preservar na tal cápsula xerox. Aliás, ter que deixar as coisas guardadas foi um problema para mim na exposição: deixei meus óculos da bolsa no armário e não pude ler quase metade das plaquinhas de identificação da exposição. Além do filme Kiss, onde intermináveis beijos projetados na parede do museu nos despertavam sensações, adorei ver a série de polaroides. Tanto os auto retratos quanto as fotos de famosos (coisa mais linda o Mick Jagger novinho!!!). A curadoria de "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" é de Jéssica Gogan, do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, Pensilvânia, de onde vieram as obras. O curador brasileiro da exposição é Luiz Guilherme Vergara. A mostra fica até 2 de julho no Maes.
(minha serigrafia d'apres Andy Warhol feita na exposição)
...como se fora seda como se fora véu um livro entre as maõs palavras cheias de vida.
Todos os sentidos são um véu cintilante entremeado de alegrias e tristezas.
O mundo gira.
Fora da prisão quantas vidas ainda pra viver quantos rios ainda pra correr tanto mar, quantas lágrimas e apesar de tudo muito por saber... sete vidas sete selos sete chaves sete portais de saberes sete estrelas sete chapéus sete luas sete sóis tanta chuva...
em meio aos sentidos o desafio para o dia acontecer
Descobri recentemente que meu avô paterno, Eurípedes, de quem não me lembro (ele morreu quando eu ainda não tinha completado 2 anos de idade) mantinha um caderno de anotações dos acontecimentos importantes da família. Essa é a página onde está registrado o nascimento do meu pai, em 1928.
Meu avô escreveu no cabeçalho: "esse caderno nunca poderá ser destruído. É uma relíquia. É um pouco do nosso diário." Minha tia Nazinha (Edna) guardou o caderno. Ainda bem! O mais estranho é o fato de meu avô não anotar no seu diário a morte de minha avó, Tercília. Ele não queria lembrar disso?
Em Vitória para participar do III Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Denis Mizne, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, deu uma entrevista muito boa ao jornal A Gazeta. Confira algumas opiniões de Denis:
"Entre 1982 e 2000, foram estabelecidos 82 novos crimes, foi criada a Lei dos Crimes Hediondos, multiplicou-se a população prisional no país, aumentou o número de policias, e qual foi o resultado? De outro lado, o discurso descompromissado da violência como conseqüência era irresponsável, porque as pessoas morrem aos milhares. Temos no Brasil mais de 100 pessoas assassinadas por dia. E quantas são roubadas, vítimas de furtos? É preciso romper com a dicotomia. A violência tem causas sociais, sim, que precisam ser combatidas, mas demanda uma agenda específica que envolve repressão de um lado, e prevenção de outro."
"(...) Assim, com uma mão nego a violência e com outra ofereço organização, trabalho comunitário, diálogo, envolvimento com esporte, trabalho, cultura. Uma política preventiva bem feita, com um bom diagnóstico, público certo, redução de acesso às drogas, de armas em circulação. Quando eu adoto esse pacote, com repressão e prevenção de qualidade, a violência cai."
"A violência é seletiva - morrem mais jovens negros, pobres, moradores de periferia das cidades -, mas o medo é absolutamente democrático, no Brasil e no mundo."
"É fundamental entender isso. Pobreza não causa nem é igual a violência. O que tem algum grau de relação com a violência? Desigualdade. A tensão entre pessoas com muito e pessoas com muito pouco; a ausência do Estado; uma sociedade de consumo que valoriza o ter, e que também valoriza a cultura da violência. Um cara andando de Ferrari ao lado de outro que não tem dinheiro para pagar a passagem do ônibus. A chance de isso dar um coquetel explosivo é enorme. Dizemos que violento é aquele cara que assalta, mas não falamos o mesmo daquele que sonega Imposto de Renda, suborna pessoas, desvia dinheiro público. Porque se a gente apontasse, de maneira séria, onde está a maior concentração de criminosos por metro quadrado, certamente falaria do Congresso Nacional. O número de congressistas acusados e processados é enorme. E ali não há pobre."
"No Brasil, falar de valor é visto como coisa de conservador. Mas nas comunidades onde a gente trabalha, vemos que quem segura muitas famílias são as mães, que não deixam os filhos desviarem. Porque a tentação é muito grande, mas a imensa maioria das famílias do Brasil está dentro da lei. Se 5% da população pobre do Brasil estivessem no crime, a elite já estaria dizimada, porque a desigualdade é brutal."
"O problema é grande, mas é preciso que cause indignação, e não impotência. Quem fica em casa só reclamando está impotente. As pessoas têm que se indignar e cobrar. Há saída, sou otimista baseado na realidade. E tem muita coisa que cada um de nós pode fazer. A gente pode ocupar os espaços da cidade, contribuir para uma vida mais coletiva. Podemos educar nossos filhos com uma cultura mais humana, de solidariedade, e não na lógica da violência, que valoriza que eles briguem na escola, que impressionem pelo tênis ou pelo relógio que usam. Na hora de votar devemos abrir mão dos nossos interesses mesquinhos, escolher bem. Cobrar resultado do prefeito, do governador, do conselho da comunidade. Exigir uma abordagem voltada para o resultado, e não para o discurso."
"Não há dúvida de que o mercado criminoso consegue agregar tanto valor à droga por ela ser proibida e ilegal, que cria uma lógica de grupos que conseguem ter acesso a armas poderosíssimas, disputar territórios de cidades e colocar em risco a própria soberania do Estado brasileiro. Ah, então legaliza? Não, mas deve-se separar o usuário leve do traficante de drogas. O tráfico de drogas, associado à lavagem de dinheiro, deve ser duramente combatido. Enquanto as drogas forem proibidas no Brasil, as pessoas que estão comprando a sua maconha, a sua cocaína, estão contribuindo para esse ciclo de mortes a que nós estamos assistindo. Não há como dissociar uma coisa da outra. O dinheiro que sai do bolso delas está gerando milhares de homicídios. Mas o problema não é só do consumidor, é também do Estado, que deve fazer o que puder para proibir a entrada da droga e das armas pelas nossas fronteiras."
Ontem no almoço um amigo me disse algo que traduz exatamente o que tenho sentido desde que voltei a estudar: "estou com saudade da literatura". Saudade da leitura fluida de um romance, do simples prazer de se deixar enredar por uma história que sabemos inventada.
Embora todo meu interesse pela teoria, acho a escrita teórica um tanto dura e repetitiva. Leio um texto teórico como quem tenta escalar o Everest. A boa literatura, ao contrário, é um abandono ao balanço da rede em sombra amena.
O texto teórico é um desafio constante (o que é ótimo). E, às vezes, é também monótono e repetitivo. Raramente é poético. Mas, podemos encontrar nele, algumas vezes, momentos de prazer e poesia. Como nesse trecho pinçado de V. Kójinov, um crítico muito ligado a Bakhtin em seus últimos anos de vida, intitulado A concepção bakhtiniana sobre poesia lírica, onde ele transcreve algumas anotações inéditas de Bakhtin:
...A autoridade do autor é autoridade do coro. A obsessão lírica é essencialmente uma obsessão coral. (...) Eu me ouço no outro, com outros e para outros. (...) O coro possível – eis uma posição firme e de autoridade. (...) Eu me encontro na voz (...) alheia. (...) Esta voz alheia, ouvida de fora, que organiza minha vida interior na lírica, é o coro possível, a voz concordante com o coro, e que sente fora de si o apoio coral possível (...) numa atmosfera do silêncio e do vazio absolutos, ela não poderia soar assim; o rompimento individual e completamente solitário do silêncio absoluto tem caráter lúgubre e pecaminoso, degenera em grito, que assusta e incomoda a si mesmo; o rompimento solitário e totalmente arbitrário do silêncio (...) é cinicamente injustificado. Uma voz só pode cantar (...) num ambiente de possível apoio coral.
Estas imagens fizeram parte da exposição A Faca no coração, realizada em 1988 durante a Semana Antimanicomial, no Rio de Janeiro. A Semana discutiu a questão manicomial brasileira. Fiz as fotos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niteroi. Na época cogitava-se a desativação do hospital. Pelo que pesquisei hoje, ele continua na ativa. Porém, uma série de mudanças foram implementadas. Se alguém souber mais notícias sobre o funcionamento atual de Jurujuba, comente aqui.
Toco tuas mãos gordinhas Pele suave que me toca Seu olhar e o meu se procuram Olhamo-nos em silêncios Meu peito te alimenta e fortalece Teu riso inocente me alimenta e fortalece Teu sono logo vem E te olho demoradamente nesse abandono Um meu espelho tão de mim diferente Um meu pedaço de gente Em sono tranqüilo Em abandono frágil e confiante Em mim Filho
Toco o vidro entre nós Tocas o vidro entre nós Entre minha mão e a tua um frio vidro E mal te posso ver por entre o marejar dos nossos olhos Lembro tuas mãos gordinhas, de pele suave E é a elas que toco através do vidro Entre tu e eu um grande abismo Que nossos olhos transpõem Onde teu sono tranqüilo? Onde meu sono tranqüilo? Onde o cálido som do seu ressonar no sono? Nossos olhos se perguntam Em abandono frágil e temeroso
Jo Name desmontando sua exposição Atenção Arte! na madrugada do dia 6 de fevereiro. Atenção Arte é uma exposição integrante da Bienal do Mar, proposta de intervenção urbana nas ruas de Vitória que acabou dia 6 de fevereiro de 2009.
As chuvas constantes desde novembro pintaram o caminho de verdes. Todos os verdes. O céu entreabria azul, mas estava matizado de brancos e de cinzas de nuvens de diferentes formatos. Se fosse um esquimó ela saberia o nome de cada branco que flutuava no azul. Ela observava toda a exuberância da natureza, em cada detalhe, guardando em seus olhos cada verde, cada azul e cada branco que podia. Ela olhava com seus olhos e neles guardava a paisagem para dar para ele. Ela sabia que ele só via cinza, semi-obscuridade e medo. Então guardava em seus olhos toda aquela paisagem que a chuva fez renascer para que ele também pudesse ver que a vida continuava para além das paredes cinza, dos muros altos e da dor. Essa dor, ela sabia, não podia aliviar ou dividir. Não podia tomar para si, aliviando-o da sua parte. Ela sofria sua própria dor, e ele sofria a dele. Isolados. Dores paralelas. Mas havia todos os verdes, azuis e brancos. Havia uma vida, que logo seria dele também. Como quem recolhe nas mãos em concha um pouco da água da nascente, ela recolhia as cores da paisagem para matar a sede dele. Até que ele pudesse beber a paisagem com seus próprios olhos.
Tudo em mim é luto. Tudo é sangue vivo, chaga ardente. Tudo é um vácuo sem respostas, um imenso túnel escuro. Quero suas palavras banais, suas pequenas miudezas cotidianas. Preciso descansar dessa ânsia, desse pesar insano, No remanso de suas abstrações leves e suas cores primárias. Talvez você me fizesse entender o sentido da dor. E me trouxesse a calma de saber que nenhuma dor é infinita. Ou talvez me desse um remanso onde pousar meu corpo E me afagasse os cabelos em silêncio. Talvez tirasse de mim a culpa que pesa meus membros E essa névoa que cobre meu olhar. Pois tudo em mim agora é névoa translúcida Espaço inexistente onde caminho tateante e trôpega e só.
Com medo do mar, Minha ilha natal se atou Com pontes e aterros Ao continente e a outras ilhas, Suas filhas menores.
Minha pobre ilhazinha, Varrida de vento sul, Por medo de ficar à deriva, Criou raízes sobre os canais e a baia, Afogou seu porto, Escondeu seu horizonte.
Hoje moramos nós em aterros, Trafegamos sobre aterros, Trilhamos nossos caminhos Sobre um mar que já se foi, Que um dia esteve ali.
Ah, minha pobre ilha, Que medrosa e tímida Alarga-se sobre o mar, Estende-se sobre os manguezais, Recria-se outra, continental, Metropolitana.
Não tenha medo do vento sul Que lhe varre e perpassa Nas tardes de domingo. Deixe-se estar à deriva nesse mar, Deixe-se encher de horizonte.
A flauta desenha arabescos nos meus ouvidos, revirando o caldo pardacento das dúvidas e das certezas na funda panela oca do meu pensamento.
Tento ajustar o compasso e o rítmo já é outro. me descompasso toda. tomo fôlego, mergulho no aquário. Caço estrelas, desenho núvens, conto os aviões que me sobrevôam. (quem me sobrevoa neles?)
-Tanzânia. -heim? -Tanzânia. O que você sabe da Tanzânia? - Como assim? A terra do Tazz? - Tazz? - O diabo da Tanzânia... o desenho, lembra? - É Tasmânia, ô, lesado! - Tanzânia, Tasmânia ... nem faço idéia de onde ficam os dois... - Tasmânia acho que é perto da Austrália. Ou é na Austrália. Ou nem existe, não sei direito. Se existe, deve ser no oceano Índico. - Por quê? - Sei lá! No oceano Índico é ficam esses lugares que não existem. Ou que existem e ninguém sabe direito. - E a Tanzânia? - Tanzânia, acho que é África. Olha ai no google... - Pô, olha você. Não estou interessado na Tanzânia. Por que esse interesse pela Tanzânia agora? - Ah, sei lá! Interesse nenhum. Me veio, sei lá. Olha aqui: África Oriental. Faz divisa com Uganda, Quênia, Moçambique, Malawi e Zâmbia. E ainda com a República do Congo, pelo lago Tanganica... E é banhado pelo oceano Índico. Sabia que tinha alguma coisa de oceano Índico! - O tal oceano que banha os lugares que não existem ou que existem e ninguém sabe direito? - Deixa de ironia... você também não sabia nada da Tanzânia. Olha aqui: aposto que já ouviu falar de Zanzibar... fica na Tanzânia. - O azul de Zezebel, num céu de Zanzibar, feliz constelação... de quem é essa música mesmo? - Não lembro. Pepeu? Tá com cara de música do Pepeu... - E a Tanzânia, que mais que fala ai? - Hum, você nem estava interessado... - Ah, um lugar que tem Zanzibar deve ser interessante. Zanzibar não é um país também? - Não. É um arquipélago que pertence à Tanzânia. Ah, mas era, olha aqui: Tanganica e Zanzibar eram países diferentes que se uniram e formam hoje a Tanzânia. Que, por sua vez, é considerado o berço da humanidade. Lá foram encontrados fósseis dos primeiros seres humanos. E também as mais antigas pegadas humanas na face da terra... - Então é a terra de Adão e Eva? - Pô, olha só: é lá que ficam o Kilimanjaro e o Lago Vitória. Então, já vi alguns documentários sobre a Tanzânia. Como é que eu não lembrava nada sobre a Tanzânia? - A gente tem tanta coisa pra lembrar...quem é que vai se preocupar em lembrar da Tanzânia? Aliás, por que pensar na Tanzânia agora? - Sei lá... deve ser um lugar lindo... lagos, cachoeiras enormes, arquipélagos, o Kilimanjaro... As neves do Kilimanjaro... - Eu vi esse filme... é com o Bogart, né? - As neves do Kilimanjaro...? Acho que não. Não é não. Acho que é com a Ava Gardner e aquele outro, lembra a música da Rita Lee... se a Débora Kerr que o Gregory... Gregory Peck! - Não, Bogart e aquela outra, Katherine... a que tem Alzheimer... - Hepburn... Ela tem Alzheimer? - Acho que sim... Mas me fala do seu interesse repentino pela Tanzânia... - Ah, nada. Só me lembrei da Tanzânia. Sei lá... de repente lembrei que esse lugar existe e que moram pessoas lá, outras viajam pra lá... não sei.... me imaginei lá, de repente. - Você parece doida!
É melhor ser alegre que ser triste Alegria é a melhor coisa que existe É assim como a luz no coração Mas pra fazer um samba um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza Senão não se faz um samba, não
Senão é como amar uma mulher só linda; e daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora Qualquer coisa que sente saudade Um molejo de amor machucado, Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor E para ser só perdão
Fazer samba não é contar piada Quem faz samba assim não é de nada O bom samba é uma forma de oração Porque o samba é a tristeza que balança E a tristeza tem sempre uma esperança De um dia não ser mais triste não...
Ponha um pouco de amor numa cadência E vai ver que ninguém no mundo vence A beleza que tem um samba não Porque o samba nasceu lá na Bahia E se hoje ele é branco na poesia Se hoje ele é branco na poesia Ele é negro demais no coração
"E afinal o que eu quero é fé... É calma... É não ter estas sensações confusas. Deus que acabe com isso. Abra as eclusas! E basta de comédias em minh'alma..." (Fernando Pessoa)
Hoje senti vontade de me organizar. Tirar a poeira da alma, passar um pano molhado nos sentimentos, limpar as gavetas do coração, jogar fora o lixo do desejo, colocar os arquivos da memória em ordem alfabética, tirar as teias de aranhas do teto da saudade. Senti vontade. Senti vontade de mandar consertar minha bússola quebrada, ajustar o relógio desse nosso tempo louco. Faxina geral em mim. Olho em volta: a casa brilha, cheira bem. Quase tudo está em seu lugar. Não é um reflexo de mim. Tenho dentro de mim uma casa velha como o mundo, um castelo assombrado por velhas lembranças e velhos fantasmas. Incômodo? Não. Conforto. E também excitação de saber que sempre estarei descobrindo um cômodo a mais, uma porta secreta pra algum lugar estranho e novo. Deixo tudo como está. Guardo no armário os baldes e as vassouras com os quais pretendia me limpar. Tenho preguiça de começar essa limpeza. Tenho apreço pelas minhas estantes empoeiradas e a bagunça desse meu pequeno mundo caótico que me surpreende de vez em quando.
No teto, flutuando como náufragos No mar azul turquesa dos lençóis, Nossos corpos brancos.
Mordo morde minha carne. Sua Carne branca pele quente Dentro de mim, Sobre você, Dentro, fora, sobre, Nem eu, nem você: Dois náufragos refletidos Num mar azul turquesa De lençóis.
Cruzo a cidade em constante construção (ela e eu).
Cruzo a cidade, revirada remodelada (Atenção: homens trabalhando)
Cruzo a cidade presépio A cidade túmulo A cidade sirenes A cidade jardins A cidade encruzilhadas De estranhos cidadãos A cidade sol com o céu sempre azul.
Cruzo a cidade sem fôlego: Preciso de ar Preciso de afago Preciso transformar esse minério que respiro Em Carlos Drumond de Andrade.
Chovia na janela. Chovia. Pingos finos, quase garoa, mas chovia. Depois de meses de poeira e calor, inverno fake, a chuva compassava música no quintal, aromatizava a casa de terra molhada. Ela chovia com a chuva, agasalhada, meias nos pés, café quente no início da noite, muita preguiça de tirar a roupa e deixar a água morna lavar o dia da pele. Ela chovia o seu falso inverno. Andava pela casa de meias, sem rumo certo, quarto, sala, cozinha, tentando lembrar de algo por fazer e sem vontade de fazer algo. Largar-se na frente da tv, talvez? Melhor ler um livro. Nem tv, nem livro, nem música – a chuva trilhassonorava a noite. A chuva que vinha das nuvens e a sua chuva interna, nebulosa, cumulus nimbus na alma. E ela abriu seu guarda-chuva cinza e agasalhou sua solidão.
Algumas pessoas a gente nunca mais viu. Passado. Mas, quando encontra um dia, é como se nunca tivessem se perdido da gente. O brilho no olhar é intenso, o abraço ainda é apertado e força do gostar é a mesma. Algumas pessoas, porém, são mesmo passado. E a gente, quando as revê, é como se tivesse visto um estranho que não quer conhecer. Elas não fazem mais parte da vida da gente. Não sobrou nenhum lugarzinho esquecido no fundo do coração para acolhê-las novamente. A gente nem tem curiosidade sobre o destino delas: não quer saber quem são agora, o que fazem, se têm filhos ou se estão apaixonadas. A gente não quer conhecer de novo. Esse sentimento (ou falta de) não tem nada a ver com ressentimentos ou mágoas. Tem a ver com a descoberta de que aquela pessoa, que em determinado momento foi tão importante e determinante, não é alguém com quem se queira compartilhar nada, muito menos o futuro, seja ele qual for. Reatar um laço perdido é propor algum tipo de aliança para o futuro. E tem gente que a gente não quer ter como parceiro para o futuro. A relação já deu o que tinha que dar e não é possível estabelecer outra. Eu não sabia que tinha pessoas assim na minha vida. Descobri agora.
Meu amigo, Você mandou me perguntar se o meu roteiro já está pronto. Está. Meu roteiro é só essa foto em anexo. Não estranhe a falta de texto e marcações de câmera. Explico: Essa foto foi feita num fim de tarde na praia e todo o filme vai ser construído em volta dela: 35mim, preto e branco. Uma foto capturada num fim de tarde solitária, de vento suave encrespando de leve o mar. Uma tarde em que, como o mar, eu me deixava varrer pelo vento suave. Eu e minha câmera olhávamos em volta, atravessadas de vento e brisa marinha, vagueando na areia como guruçás noturnos. Na linha que divide o mar e o céu meus olhos viram a foto: um guarda-sol ligeiramente inclinado e, ao lado dele, de costas para mim, um homem jovem, alto, movimentando o corpo num ritmo lento de alongamento. Com a cumplicidade da câmara observei-o mais de perto, naquele fim de tarde suave e ventio. Ele se inclinou para a direita. Apertei o botão. A foto estava ali, latente, dentro da câmera.
(Ai, o corpo do rapaz na tarde solitária do Leblon... Eu, voyeur, estudo As coxas, os ombros, Seus movimentos na lenta ginástica. Ah, rapaz... que malícia a sua colocar Seu corpo Assim, contra o mar e o céu Nessa tarde solitária No Leblon.)
Esse é meu roteiro. Ele fala das delícias da solidão num fim de tarde marinha, da liberdade do olhar e do desejo do voyeur. Não somos todos nós, cinéfilos, uns solitários que prezamos a liberdade do olhar? Nós não nos escondemos no escuro de uma sala de projeção para observar outras vidas, mesmo que falsas? Não buscamos, com uma sede que nunca se aplaca, viver outras histórias que não a nossa? Como o personagem de A Rosa Púrpura do Cairo, estamos sempre lá, na sala escura, esperando, talvez, que o nosso personagem predileto saia da tela e nos transporte para uma outra vida, ou um outro filme.
A cerveja gelada, o vento noroeste que arrepiava a pele, a cidade deserta: qual desses fatores me alterava assim os sentidos? Nem mesmo pensava sobre isso. Só sentia que alguma coisa estava aguçada. O gosto da cerveja amarga, o efeito do vento na epiderme, o sabor marinho da casquinha de siri, tudo estava potencializado, multiplicado por cem. Era como se de uma hora para outra as coisas todas ganhassem um sentido ainda não vivido. Como se eu visse tudo pela primeira vez. Um pouco mais de pimenta: queria desfrutar ao máximo daquele súbito super-poder que me chegou no início da noite. Ardor. Mais um gole de cerveja: amargo. E tinha uns olhos, que acompanhavam cada movimento meu, liam meus lábios, acompanhavam os volteios do vento em meus cabelos. Uns olhos... Qual a cor desses olhos? Pretos, ou castanho escuros? O mundo se resumia no travo amargo da cerveja, no ardor da pimenta e naqueles olhos que eu procurava desvendar. Castanhos, inequivocamente castanhos, com alguns matizes mais escuros e outros dourados. Os olhos me diziam alguma coisa, que eu respondia, aceitava, discordava. Um diálogo de olhos. Comecei a medir a distância entre eles, depois a proporção deles em relação ao nariz. Um nariz grande. Sempre gostei de grandes narizes: dá mais força ao rosto todo. E bocas grandes, cheia de dentes, com lábios carnudos. Essa era uma boca assim, e tinha certo jeito de escultura. Não uma escultura de mármore, perfeita, mas como talhada a canivete na madeira bruta. Não era uma boca perfeita, nem bem desenhada. Parecia até mesmo sobrar no rosto. O conjunto do rosto não era bonito. Pelo menos não era o que se convenciona chamar de beleza masculina, não possuía a harmonia e a simetria que o conceito de beleza exige. Mas me prendia o olhar, como se aqueles olhos me guiassem para aquele rosto imperfeito, forte e, por isso, belo.De que falávamos? Do tempo, de música, de projetos futuros, pequenas idéias em comum. Não importava o diálogo das vozes. O diálogo dos olhos era o mais intenso, o mais denso, mais prenhe de sentidos. O bar quase vazio, o vento frio, a rua deserta, tudo ganhava um novo sentido visto através desses olhos que me viam. Olhos que viraram mãos, em diálogo de afagos, que viraram bocas que se confundiam em líquidos e línguas, que viraram pele que subitamente se colam de desejo, se penetram, se fundem. Mas ai não havia mais o bar deserto, a rua molhada da chuva que passou. Havia pedras, mar batendo e uma traineira passando motor, motor, motor, na noite escura.
“Solidão é quando a gente não tem com quem falar que está sozinho” (fala do personagem Júlia)
A Via Láctea, de Lina Chamie, é um dos filmes mais intensos e perturbadores que vi ultimamente. (Pausa. Branco). Intenso e perturbador são palavras muito enfáticas e contundentes, que mais ou menos encerram a possibilidade de reflexão racional sobre o filme. Mas é uma reflexão racional o que quero fazer? O filme não me atingiu racionalmente. Ele me atingiu fisicamente: expôs meu oco, o buraco mal disfarçado da minha confusão emocional.
Vesti A Via Láctea por fora e por dentro e sai do cinema repleta das estrelas mortas que ainda teimam em brilhar nesse céu. Um céu que não começa nas nuvens, mas na epiderme da grama mais rasteira, na nossa epiderme exposta à poesia do caos humano, do caos urbano, do caos do amor, do caldo mal cozido de nossa dor de ser humano e amar e desamar, de pensar e se confundir, de lembrar e ser lembrado. E de esquecer. A Via Láctea poderia ser mais um história de amor e desencontro. Mas Lina Chamie optou pela via mais difícil e bela: a da poesia. E transformou seu filme numa obra de arte, no sentido mais amplo e contemporâneo do termo.
Para quem gosta de se ater ao fio da história, a de A Via Láctea é assim: Heitor, não por acaso um professor de literatura, e Júlia, duble de atriz e veterinária, se encontram e desencontram nos caminhos da grande cidade de São Paulo. Uma discussão violenta ao telefone faz com que Heitor saia de casa para ir ao encontro de Júlia. A história se resume na busca de Heitor por Júlia. E nessa busca ocorre também o encontro de Heitor com ele mesmo. São as lembranças de Heitor que nos contam sobre o casal e seu amor, tendo como pano de fundo e interlocutores a cidade e o trajeto entre o apartamento de Heitor e a casa de Júlia.
Mais que o cenário desse amor, a cidade de São Paulo é um personagem importante na construção do filme. São suas vias e seus remansos que determinam a interação entre os personagens. É a cidade que serve de fio condutor para essa história construída pelas lembranças e pela imaginação de Heitor. Uma história que pode mudar a qualquer hora, pois não há separação entre o que é a lembrança real, o sentimento ou a imaginação do apaixonado enciumado interpretado por um maravilhoso e maduro Marco Ricca (também produtor do filme).
A Júlia de Alice Braga (a Angélica de Cidade de Deus) a princípio parece não existir. Nós a vemos apenas com o olhar de Heitor, idealizada pelo amor de Heitor. Ela só aparece como Júlia no fim do filme. E ai percebemos a grandeza da atriz Alice Braga, que sutilmente construiu o personagem mítico que Heitor ama e o personagem real Júlia.
Toda a narrativa é construída com a matéria bruta da mente de Heitor e amalgamada com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Mário Chamie, entre outros. E também com a música de Gil, Satie e Mozart, misturadas à clássica abertura de desenho animado, o burburinho da cidade e a participação luxuosa e dionisíaca do Grupo Oficina. Tudo isso sobreposto às imagens poéticas da fotografia de Kátia Coelho e a primorosa direção de arte de Mara Abreu formam um palimpsesto de sentidos às vezes difícil de decifrar. Mas que toca na alma da gente com força. Um material delicado e denso que Lina Chamie e a equipe dominam com absoluta precisão e delicadeza. Um roteiro bem construído que a fotografia, o som, a direção e a atuação souberam interpretar com a maestria de quem trabalha com o coração desperto.
Exterior, dia. Sara chega ao prédio para começar a trabalhar, pega a chave com a faxineira e abre a porta. Acende as luzes da sala escura, tranca a porta por dentro e começa a olhar para tudo em volta. Vai até o consultório, uma sala ampla e clara. Abre as cortinas e janelas. Olha os livros enfileirados nas estantes com interesse e aprovação. Sobre a mesa, alguns objetos chamam atenção: uma pequena banda de Moebius em metal, uma escultura mínima de um cavalo correndo. Pega a escultura e examina com interesse: é perfeita, com detalhes realistas e movimento. Procura o nome do escultor na peça. Não acha. Coloca a peça no lugar e examina a agenda. Percorre com os dedos a data. Horários marcados das nove e meia da manhã até 10 da noite. Sorri. Olha ainda alguns cartões postais sobre a mesa. Pega um com uma foto em p&B de Paris e lê: saudades... amor. C. Deixa o cartão no lugar rapidamente, como quem se arrepende da indiscrição. Volta à sala de espera. Algumas flores murchas no vaso de cristal caro lhe chamam a atenção. Pega o vaso com cuidado e leva até a pia do banheiro. Tira as flores, despeja a água, coloca água nova e retira as flores já murchas, procurando dar ordem e harmonia ao novo arranjo. Examina com atenção e recoloca na sala de espera. Acerta algumas almofadas e vai pra mesa da secretária. A sua mesa, de agora em diante. Senta na cadeira macia de design moderno e examina as gavetas. Quase nada dentro delas. Uns papeis em branco, algumas anotações apressadas. Muitos clips coloridos, canetas de vários modelos. Um brinco sem par. Olha para computador à sua frente. Só então nota que tem um papel colado nele e tem alguma coisa escrita no papel. Lê: Sara, Bem vinda. Espero que a simpatia mútua do nosso primeiro encontro continue sempre. Acho que vou gostar de trabalhar com você. Se ainda não tomou café, tem cafeteira elétrica e pó no armário da cozinha. Tem algum dinheiro na caixinha de marfim na minha mesa. Por favor, compre alguns biscoitos casadinho na confeitaria em frente ao prédio e uvas na quitanda. Gosto de beliscar durante o dia. Veja o que você gosta de comer a compre também. Vai ser um dia duro. Chego às dez. O Jader espera. Até mais. M. Sara lê o bilhete com o rosto contraído. Fica pensativa. Retira o papel do monitor, dobra com cuidado e coloca na última gaveta. Abre as portas do que ela acreditava ser um armário e vê uma pia, cafeteira, armário de parede com copos, xícaras e outros utensílios de cozinha. Faz o café e vai até o consultório pegar o dinheiro na caixinha de marfim. Abre a caixa e vê, com surpresa, um brinco igual ao que achou dentro da gaveta da secretária. Pega o brinco e examina com mais atenção do que examinou o outro. É um brinco simples de prata, mas com design sofisticado de joalheiro. Coloca de novo na caixa, pega o dinheiro e sai para a rua. Quando volta ao consultório encontra um rapaz um pouco mais novo que ela sentado no chão do corredor, em frente à porta do consultório. Roupas meio fora de moda, óculos de lentes grossas que o deixam mais velho, cabelos desleixados. Sara pede licença a ele pra abrir a porta, mas ele não sai. O rapaz diz a ela que não adianta entrar, que a porta está fechada. Não tem ninguém ai, diz. Ela mostra a chave com um sorriso. Ele se levanta, meio a contragosto e olha pra ela com curiosidade. Pergunta: Quem te deu a chave do consultório? Sara: Dr. Marco. Sou a nova secretária dele. Jader: você não parece secretária de psicanalista. Sara: como é que deve parecer uma secretária de psicanalista? Jader: sofisticada, linda e sensual. Sara: muito obrigada. È uma maneira bem sutil de dizer que não sou nada disso. Jader (desconcertado): Não, você é linda e sensual. Sara (com cara séria e professoral): mas não sou sofisticada, né? Jader (ainda mais desconcertado): não foi isso que quis dizer. Ela sorri, abre a porta e convida o rapaz pra entrar com um gesto. Ele se senta no canto do sofá grande, encolhido. Ela vai até a cozinha e retira o café da cafeteira, e coloca na garrafa. Desembrulha os biscoitos e os coloca num vidro grande. Lava as uvas e leva até a geladeira, dentro do consultório. O rapaz continua na mesma posição, encolhido no sofá. Ela olha pra ele como quem o nota pela primeira vez e pergunta se ele quer café. Jader: Não. Quando tomo café fico muito nervoso. Eu já sou muito nervoso. Sara: Se quiser alguma coisa é só falar, Jader. Jader: Como é que você sabe meu nome? (assustado) Sara (continuando seus afazeres): sou secretária do seu médico, esqueceu? Jader (enfático): Ele não é médico, é psicanalista. Sara: Qual é a diferença? Jader: Como secretária dele você deveria saber. Sara (divertida): Sou nova na profissão. Não sei. Me explica. Jader (sério, levanta-se a segue pelo consultório): Médico pratica a medicina. O Marco é psicanalista, analisa as pessoas do ponto de vista da psique. O Interior da mente delas. Isso não tem nada a ver com a medicina. Sara: Pensei que tivesse relação. Mas ele é médico. Jader: É formado em medicina, mas aqui não é médico. Médico cuida do corpo. Ele cuida da mente. Sara: Não é tudo uma coisa só? Jader (assustado): De onde você tirou essa idéia? Claro que não. O corpo é o que sustêm a mente. A mente é totalmente independente do corpo. Sara: Pois a minha não funciona quando sinto dor de dentes. Acho que você está falando de alma, não de mente. Jader: Não acredito em alma. Sara: Não falei de alma do outro mundo, Jader. Falei dessa instância etérea que é o nosso ser. Jader: Você é algum tipo de mística, religiosa? Não pode trabalhar aqui não. Nós, que acreditamos na psicanálise, não somos místicos. Sara: Jung acreditava na força do pensamento mítico. Jader (nervoso): Jung era um charlatão! Marco não conversou com você antes de te contratar? Você não serve pra trabalhar aqui, não. Não pode ficar falando essas coisas pros pacientes dele. Sara (cautelosa): Tem razão, Jader. Jader: Tenho razão em que? Sara: Em dizer que não posso ficar falando com os pacientes. Isso é serviço dele. Sente aí, pegue uma revista e espere ele chegar. Não falamos mais, tá bom? Ele para, desconsertado. Volta para a poltrona cabisbaixo e senta no mesmo canto onde estava. Olha em volta e pega uma revista. Folheia sem interesse e larga no sofá. Levanta-se e vai até ela. Jader: Não, prefiro conversar. Já li todas essas revistas daqui. Você tem que falar pro Marco comprar revistas novas. Sara: Vou dar o recado. Jader: Isso não é um recado. È sua função, como secretária, zelar pelo bem estar dos pacientes. Sara: Não. Minha função é zelar pra que tudo ande bem. Quem tem que zelar pelo bem estar do paciente é o médico. Jader: psicanalista! Sara (já sem paciência): É, psicanalista. Silêncio Jader quebra o silêncio: Desculpa. Não converso muito com as pessoas. Não sei o tom que usar numa conversa. Fui grosseiro com você. Sara (olhando nos olhos dele): Não se preocupe. Jader: Você leu Jung? Sara: E também um pouco de Freud. Jader: Você é estudante de psicologia? Quer ser psicanalista? Sara (sorrindo): Não. Trabalhei numa livraria. Jader (decepcionado): Sei. Sara: Você estuda? Jader (entusiasmado): Entrei na faculdade aos 17 anos. Sou precoce (ri). Mas não terminei o curso. Fiquei doente. Sara: Que pena. Doença grave? Jader (rindo alto): O que você acha que estou fazendo aqui num consultório de psicanalista? Sara: Você mesmo disse que ele não é médico. Não cuida de doentes. Jader (surpreendido com a resposta): Tem razão. Mas existem doenças da mente também. Sou esquizofrênico. Sara (olhando direto pra ele): Você tem visões, essas coisas? Jader (subitamente triste): Ás vezes ouço coisas. Mas não sempre. Mas não se preocupe comigo. Nunca ataquei ninguém. Ri. Sara (rindo): Não estou com medo de você não, Jader. Conheço muitos malucos na minha vida. Minha família é cheia deles. Os dois riem, descontraídos. Jader: Me dá aquele café? Sara: Não. Você disse que fica nervoso. Tenho medo de maluco nervoso. Jader (rindo): Você é legal. Não vou ficar nervoso, não. Pode me dar o café. Tem leite? Sara: Tem leite em pó. Serve? Jader: Gosto com bastante leite em pó, pra ficar aquela papinha de leite no fundo. Sara: Eu também. Vou preparar pra nós dois.
Interior. Luz fria de um corredor de prédio comercial. Sara, uma jovem de 20 e poucos anos, está parada no corredor, em frente à uma porta, sozinha. Vacila um pouco e toca a campainha. A porta se abre e aparece um homem de cerca de 30 anos, muito bonito, alto, e sorridente. Close no rosto de Sara (espanto por ver um homem tão bonito). Sara: Consultório do Dr. Marco? O homem sorri e faz que sim com a cabeça. Sara: Oi, Meu nome é Sara. Eu liguei hoje cedo, pelo anúncio. O Dr. Marco...? Close no rosto dele: sorrindo, avalia com os olhos a mulher. Marco: Oi, Eu sou o Marco. (Indica com a mão a poltrona e sentam-se um em frente ao outro) Você tem experiência em consultórios? Sara (séria): Nenhuma, mas tenho experiência com pessoas. Já fui vendedora. Não deve ser muito diferente, acho. Marco: É, tem razão, aqui também é um trabalho na área de vendas. Sara (sorri e se descontrai, surpresa com a resposta): Você vende felicidade, não é? Marco (sorri): Mais ou menos. Você vendia o que? Sara (encolhe os ombros): Livros. Trabalhei numa livraria. Marco (sério): Esse foi seu primeiro emprego? Sara (séria): Não, antes disso trabalhei num jornal, na minha cidade. Fazia pesquisa para a redação. Marco (sério): Que tipo de pesquisa? Sara: (séria): Material para fomentar as matérias dos jornalistas: vida de personalidades e artistas, história de bairros, empresas e instituições, essas coisas. Marco: (demonstrando interesse): Trabalho interessante. Deve ter te ajudado bastante quando você trabalhou na livraria. Sara (sorrindo): É verdade: não li todos os livros que vendi, mas li tantas resenhas e sobre tantos autores que posso convencer qualquer um que o livro é ótimo. Os dois riem, olhando-se fixamente. Ele demonstrando interesse, ela, um pouco tímida. Marco: Você estuda? Sara (séria subitamente): Não. Fazia Artes Plásticas, mas abandonei o curso. Vou fazer um novo vestibular. Marco (demonstrando interesse): Por que parou? Sara (encolhendo os ombros): Descobri que sou só uma apreciadora de arte, mas não tenho o menor talento. Vou tentar vestibular para Letras. Marco (brincando): Só não vai descobrir que é só uma apreciadora de literatura, mas não tem o menor talento... Os dois riem. Depois fica um silêncio meio constrangido. Ele quebra o silêncio: Você pode começar amanhã de manhã? Começo a atender às 10h, então você tem que estar aqui às nove. A faxineira vai estar aqui. Ela trabalha no prédio. Vou avisá-la hoje que você começa a trabalhar amanhã às 9h. Minha agenda está dentro do consultório. O que você tem que fazer é olhar o que tenho na agenda, atender telefone e organizar as fichas dos pacientes. Nada de complicado. Mas tem outro trabalho que precisa ser feito: escrevo artigos e preciso que você digite esse material. Você é boa digitadora? Sara: Sou razoável. Nunca contei quantas palavras faço por minuto. Digito meus próprios textos e algumas coisas de trabalho. Se você precisa de uma secretária muito experiente nisso, eu não sou indicada. Mas acho que a prática pode melhorar isso. Você não vai estar aqui amanhã quando eu chegar? Marco: Não. Só chego às 10. É o horário do meu primeiro paciente. O nome dele é Jader. Ele geralmente chega cedo. (sorrindo): vai estranhar de não encontrar a porta fechada. Sara: Seus pacientes tinham que esperar você no corredor do prédio? Marco: Pois é. Ainda bem que eles são pacientes. Ambos riem do chiste. Silenciam. Fica um silêncio meio constrangido no ar até que ela se levanta e pergunta: posso ver seu consultório? Nunca vi um divã de psicanalista ao vivo... Ele ri: não tenho divã. Tenho uma poltrona confortável para os pacientes e outra pra mim. Sara: ah! (decepcionada). Então tá tudo certo? Começo amanhã, ok? Como é o nome da faxineira? Marco: faxineira? Sara: sua faxineira, que trabalha no prédio. Ela está com a chave, né isso? Marco: É. Keyla. O nome dela é Keyla. Pode pegar a chave com ela. Vou avisar hoje. Sara: Então, tchau. Marco: até amanhã. Sara: Até. Nenhum dos dois se move. Ficam olhando um para o outro por um longo tempo. Fade
"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta esfria; aperta e daí afrouxa; quieta e depois desassossega. O que ela quer da gente é coragem."
Escrevo. Às vezes, uso palavras. Outras vezes uso imagens. Escrevo sobre o que gosto, o que vejo e o que desejo. Ou sobre o que me desgosta, sobre o que não alcanço e sobre o que me apavora. Escrevo.
As imagens postadas aqui são de minha autoria. Às vezes utilizo imagens de outros, pela força. Nesses casos costumo dar o crédito. Quando não consigo achar o tal crédito, deixo isso bem claro. As imagens de minha autoria que aqui posto podem ser reproduzidas desde que citada a fonte e a autoria.
Outras produções minhas podem ser encontradas nos links relacionados ai embaixo. Explore a vontade e, se quiser, deixe sua opinião.
5. Uma boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos; a linguagem elegante do homem virtuoso é uma opulência. 6. Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. 7. Se adquirires um amigo, adquire-o na provação, não confies nele tão depressa. 8. Pois há amigos em certas horas que deixarão de o ser no dia da aflição. 9. Há amigo que se torna inimigo, e há amigo que desvendará ódios, querelas e disputas; 10. há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça. 11. Se teu amigo for constante, ele te será como um igual, e agirá livremente com os de tua casa. 12. Se se rebaixa em tua presença e se retrai diante de ti, terás aí, na união dos corações, uma excelente amizade. 13. Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos. 14. Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro. 15. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. 16. Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade; quem teme ao Senhor, achará esse amigo. 17. Quem teme ao Senhor terá também uma excelente amizade, pois seu amigo lhe será semelhante.
(Eclesiástico - 6 (5-17)
filosofia de botequim 2
"nine out ten film stars make me cry I'm alive!" Caetano - nine out ten
Capelinha de São Benedito - Itaúnas
Emoção e Consciência
"A constatação de que emoção e consciência não são a mesma coisa mostra que não temos de ser forçosamente controlados pela emoção. Antes de cada uma de nossas ações é preciso que haja um espaço para avaliarmos as alternativas e escolher com liberdade a melhor maneira de atuar. É evidente que, enquanto não aprendermos a disciplinar nossas mentes, teremos dificuldade para exercer essa liberdade. E a maneira como reagimos aos acontecimentos e experiências é que determina o conteúdo moral de nossos atos. Em poucas palavras isso significa que nossos atos serão éticos se reagirmos positivamente, visando ao bem da coletividade e não aos nossos interesses pessoais e exclusivos. Se reagimos negativamente, negligenciando os outros, nossos atos serão antiéticos." Dalai Lama - Uma ética para o Novo Milênio
A rua
Bem sei que, muitas vezes, O único remédio É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, A dívida, o divertimento, O pedido de emprego, ou a própria alegria. A esperança é também uma forma De continuo adiamento. Sei que é preciso prestigiar a esperança, Numa sala de espera. Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, Esperança sentada. Não abdicação diante da vida.
A esperança Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera. Nunca é figura de mulher Do quadro antigo. Sentada, dando milho aos pombos. (Cassiano Ricardo)
João Victor
I'll Be There
You and I must make a pact We must bring salvation back Where there is love I'll be there (chorus) I'll be there
I'll reach out my hand to you I'll have faith in all you do Just call my name And I'll be there, I'll be there
And, ohhhhh I'll be there to comfort you Build my world of dreams around you I'm so glad that I found you I'll be there with a love that's strong I'll be your strength; I'll keep holdin' on
holdin' on, holdin' on, holdin' on Yes I will, yes I will
Let me fill your heart with joy and laughter Togetherness, girl it's all I'm after Whenever you need me I'll be there I'll be there
I'll be there to protect you Jermaine: Yeah baby With a non-selfish love that respects you Just call my name And I'll be there, I'll be there
And ohhhhh... I'll be there to comfort you Build my world of dreams around you I'm so glad that I found you I'll be there with a love thats strong I'll be your strength; I'll keep holdin' on
holdin' on, holdin' on, holdin' on, holdin on'
If you should ever find someone new I know he'd better be good to you 'Cause if he doesn't I'll be there I'll be there
Don't you know baby yeah yeah I'll be there I'll be there Just call my name, I'll be there
Just look over your shoulders honey, ooohhh I'll be there I'll be there Whenever you need me, I'll be there I'll be there, dont you know baby yeah, yeah I'll be there
Salve Jorge!
Jorge
Euandareivestidoearmado, com as armasdeSão Jorge paraquemeusinimigos tendopés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem, nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal. Armas de fogo omeu corpo não alcançarão, facaselançassequebremsemaomeu corpo chegar, cordase correntes se quebrem sem meu corpoamarrar.
São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor,abre os meus caminhos.Que a paz, o amor e a harmonia estejam semprepresentesnomeucoração ,nomeu lar eno meu trabalho;vele por mim e pelos meus,protegendo-nos sempre,abrindo e iluminando os nossos caminhos,ajudando-nos também atransmitirpaz, amor e harmonia a todos que nos cercam. Amém.
My Andy Warhol Project
João Victor
com o Leo, na exposição do Andy Warhol
Paciência
Mesmo quando tudo pede Um pouco mais de calma Até quando o corpo pede Um pouco mais de alma A vida não para...
com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
sobrevoa a cabeça do fotógrafo
e pousa sobre seu ombro esquerdo.
de lá, pinta a cena.
em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros.
Lagoa do Juara - Jacaraípe
Pedra Azul
Pico do Itacolomi
filosofia de botequim 3
"Não se afobe, não que nada é pra já o amor não tem pressa ele pode esperar em silêncio num fundo de armário na posta-restante milênios, milênios no ar" Chico Buarque - Futuros amantes
vôo em Vargem Alta
Lagoa das Almas - Serra
Casa em Santa Teresa - ES
filosofia de botequim 4
"Rock and roll capítulo um versículo vinte século vinte e um" Gil - Chuck berry fields forever
Itaúnas
Pancas - Parque dos Pontões
Casa dos Lambert - Santa Teresa
filosofia de botequim 5
"Tocar na banda pra ganhar o quê Duas mariola e um cigarro Iolanda" Adoniran - tocar na banda
namoro no farol Santa Luzia
Praia do Ribeiro
casario em Santa Leopoldina
filosofia de botequim 6
"A sorrir eu pretendo levar a vida pois, chorando, eu vi a mocidade perdida" Cartola - o sol nascerá
Barragem do Jundiá - Jaguaré
Ilha das Caieiras
Itaúnas
filosofia de botequim 7
"O amor vem por princípio, a ordem por base O progresso é que deve vir por fim Desprezastes esta lei de Augusto Comte E fostes ser feliz longe de mim" Noel Rosa e Orestes Barbosa - Positivismo
Foz do Rio Cricaré - Conceição da Barra
Praia da Costa vista do Convento
filosofia de botequim 8
Mora na filosofia
pra que rimar
amor e dor?
Caetano
catraieiro na baia de Vitória
Mestre àlvaro visto da Fonte Grande
Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis.
Procuro por minhas palavras minha maneira de dizer amor, ódio, água, pedra, verão, inverno.
eu, limitado a mim, mas livre para dizer estas palavras.
palavras que firam ou que toquem ou envolvam suavemente.
mas palavras minhas, palavras também inteiras. (íntegras, verdadeiras,
mas não tanto que me destruam. pois o homem tem seu limite, sua capacidade de suportar a verdade.)
(onde as deixei? em que recanto obscuro?)
(Tércio Ribeiro de Moraes)
a luz da leitura
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Pessoas
E afinal o que quero é fé, é calma, É não ter estas sensações confusas. Deus que acabe com isto! Abra as eclusas — E basta de comédias na minh'alma! (Fernando Pessoa - Álvaro de Campus - in Opiário)